Em continuidade ao que vem chamando de “processo de reestruturação na área de seguros”, foi publicado ontem (15.10) Fato Relevante, em que o Banco do Brasil comunica que propôs, e a União Federal aceitou, tratativas, sem efeito vinculante, visando à aquisição de participação acionária do IRB – Brasil Re S.A.
Sem mais informações acerca da operação, tudo o que se pensar será “achismo” e as interpretações são várias. Pelo movimento do BB nos últimos tempos, sabia-se que o processo de reorganização de sua área de seguridade era para ser levado a sério e muitas leituras podem ser feitas a partir da divulgação do Fato Relevante. Para os mais céticos, trata-se de garantir a ingerência governamental no setor de seguros e resseguros.
Embora, formalmente, o Banco não detenha o controle das empresas de seguros e capitalização nas quais tem sociedade, todos sabem que a participação do Banco na gestão de tais sociedades se dá de forma efetiva e não se faz qualquer planejamento ou prospecção, sob qualquer aspecto, sem sua interferência na decisão final, até porque é quem manda na distribuição dos produtos. Para alguns, a transferência do capital votante do IRB para o Banco estatal é o primeiro passo da privatização, por mais incoerente que isso possa parecer, já que se admite que o Banco logo em seguida venderá as ações para um sócio privado, livrando-se das exigências impostas ao poder público, sem perder, de fato, a gestão da empresa, ou seja, o Governo continuará a ter influência nas decisões, nos planos e na atuação do ressegurador, sem amarras legais. Este modelo foi testado nas companhias de seguros, capitalização e previdência complementar nas quais o BB participa.
Pode ser outra, todavia, a visão acerca da estratégia do BB. É lícito supor que o estudo para a reorganização da área de seguridade do Banco tenha indicado que é importante rever seu papel e ser mais competitivo na busca pela liderança do setor, que o mercado de seguros está em evolução, e que no Brasil ainda há muito a crescer. O resseguro será, assim, um bom negócio, e o fato de o IRB ter expertise facilita a escolha. Embora o IRB não mais seja monopolista, ainda é o principal ressegurador no Brasil, mas suas operações estão a exigir um novo modelo, mais dinâmico, menos burocratizado, mais consentâneo com a abertura do mercado e a performance dos grandes resseguradores internacionais.
Torcemos para que a chegada do BB ao resseguro instigue as mudanças que precisam ser feitas. Não só no resseguro, mas nas operações e procedimentos como um todo, e que essa “revolução” induza ao crescimento e modernização do mercado. Vamos acompanhar os próximos movimentos do BB para que se verifique de que forma será feita a transação e, quem sabe, possamos vislumbrar com algum desassombro o horizonte do IRB, que ainda é o maior ressegurador da América Latina.
Nunca é demais lembrar que a negociação que ora se analisa depende também da aprovação da Susep, órgão que regula o mercado de seguros e resseguros.
Aquisição do controle do IRB
17 de outubro 2009 | Solange Vieira de Vasconcellos