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Identificação de idosos é inadequada

02 de outubro 2019

Especialista explica que a maneira correta de distinguir o tratamento é a vitalidade do indivíduo

A divisão de tratamento ao idoso de acordo com faixa etária não é adequada e prejudica o sistema de saúde, explica Edgar Nunes, coordenador do Núcleo de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ele, a forma correta é qualificar o tratamento segundo o grau de vitalidade, entre idoso robusto e idoso frágil.

No Brasil, estima-se que a população com 60 anos ou mais seja de 30 milhões de pessoas, o que representa 14% do total, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o segmento populacional com maior taxa de crescimento, acima de 4% ao ano, devendo atingir 41,5 milhões em 2030. “O envelhecimento é uma conquista, na verdade, é a maior conquista do século. Não é um problema. O problema é o que é feito com o idoso e não o envelhecimento em si”, diz.

Para avaliar as peculiaridades dos idosos, Nunes desenvolveu o Índice de Vulnerabilidade Clínico Funcional (IVCF), que examina a condição do indivíduo e está disponível na internet para uso de todos. “Será que o sistema de saúde sabe diferenciar um e outro? Ele trata todos iguais. Esse é o equívoco. O que é bom para o idoso com muita vitalidade é péssimo para o idoso com muita fragilidade. São organismos completamente diferentes”, afirma.

Ele vai além: “Mais de 50% dos idosos são robustos, 30% estão caminhando para a fragilidade e apenas 20% são frágeis de fato”. O IVCF verifica a condição do idoso de acordo com a reserva homeostática do idoso, que é a capacidade do organismo de se defender das agressões dos meios interno e externo. Também são observadas a fragilidade e a medida da vulnerabilidade do organismo.

Para envelhecer com vitalidade, é preciso cuidar da saúde desde o primeiro suspiro de vida. O sistema responsável por esse cuidado é a atenção primária, que auxilia na prevenção e descoberta precoce de doenças e males. “A grande prevenção que nós temos que fazer na terceira idade é a prevenção quaternária, ou seja, evitar o excesso de medicamento e de procedimentos, de tudo, como tudo na vida”, ensina. “Esse é o segredo para viver muito, viver mais e viver melhor”. A prevenção quaternária destina-se a proteger as pessoas em relação ao excesso de intervenções, diagnósticos e rastreamento dos fatores de risco.

Na avaliação de Nunes, o excesso de tratamentos é o maior problema do idoso, pois, provoca o aumento de intervenções, medicamentos e procedimentos. “O lugar mais perigoso do hospital para os idosos é o hospital, porque lá está cheio de médico. Cada dia um medicamento, é um perigo”, frisa. No entanto, ressalta que cada caso é um caso, de acordo com a vitalidade do indivíduo.

A polifarmácia, como pode ser chamado o excesso de medicamentos, ocorre, geralmente, com o uso de cinco ou mais remédios por dia e pode causar a morbimortalidade. Segundo o professor, trata-se de uma pandemia, em que, a cada três idosos, um possui o indício. “O exagero provoca prejuízo de R$ 60 bilhões por ano: 30% do orçamento do Ministério da Saúde, sendo que 50% são considerados evitáveis”, explica.

O professor esclarece que a definição por idade é motivo de gastos desnecessários no Sistema Único de Saúde (SUS) e na iniciativa privada. No entanto, revela que prefere “um idoso tratado no SUS do que na medicina privada”, pois a saúde suplementar permite vasta margem de livre escolha.

Referência: Correio Braziliense