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Preço faz a diferença

02 de outubro 2019

É preciso que forma de financiamento do sistema de saúde privado contenha custos

“Há uma mudança da base etária da população e, por isso, é preciso de um ajuste estrutural. A gente tem que pensar em soluções e em como construir e manter esse sistema para os próximos 50 anos” Andrey Freitas, coordenador-geral da Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça

Informação, preço e qualidade. São essas as variáveis que importam ao escolher um plano de saúde do ponto de vista da população, segundo o coordenador-geral da Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça (Senacon), Andrey Freitas. Ao abordar os três pontos, o técnico avalia que é preciso de uma mudança no sistema, sendo a mesma projetada a longo prazo. “Há uma mudança da base etária da população e, por isso, é preciso de um ajuste estrutural. A gente tem que pensar em soluções e em como construir e manter esse sistema para os próximos 50 anos”, avalia.

Freitas explica que, no sistema de saúde complementar, as pessoas normalmente dividem os custos do conjunto todo quando pagam por um plano. “Normalmente, você faz uma distribuição para não sacrificar as pessoas que têm mais idade, que são as que mais utilizam o plano, geralmente”. No entanto, para isso funcionar a longo prazo, é preciso ter uma base de jovens, se não maior, pelo menos igual à de idosos. Segundo o coordenador da Senacon, essa base etária, que antes servia para financiar o sistema privado, está diminuindo.

“O que vemos é a população envelhecendo. Você está invertendo essa pirâmide. Vamos ter mais idosos do que jovens na população brasileira nos próximos 40 anos e, com isso, um problema de financiamento do modelo”, diz Freitas. Por isso, é preciso que a forma de financiamento do sistema de saúde privado se reinvente sem que os preços se tornem tão elevados para evitar um grande impacto no sistema público de saúde.

Ações conjuntas

Além do envelhecimento, outro problema na mudança da estrutura etária da população brasileira que atinge o sistema dos planos de saúde é a longevidade maior dos cidadãos. “Temos que repensar o modelo. As pessoas estão vivendo mais e quanto mais elas viverem, a frequência de consultas aumentará e os exames se tornarão mais complexos”, pontua o representante da Senacon.

Uma das formas de amenizar o impacto da mudança da base etária da população brasileira seria estimular a complementaridade entre setor público e setor privado de saúde. Para Freitas, uma visão “enviesada” dificulta essa ação complementar entre os sistemas. “É preciso mostrar claramente para a sociedade essa complementaridade entre os setores público e privado de saúde. Parece-me que há, por questões históricas, uma separação entre os dois”, avalia.

“Historicamente, tratamos, no Brasil, o serviço público como algo destinado às pessoas de baixa renda. Essa visão enviesada dificulta a complementariedade e cria, a meu ver, uma boa parte dos desperdícios de recursos”, completa o coordenador da Senacon. Ele diz que, atualmente, os serviços de saúde público e privado não conversam entre si como deveriam. “Essa combinação de esforços tem que ser melhor trabalhada”, afirma.

Até porque, como Freitas alerta, é possível que haja uma migração do setor privado para o público, caso os planos de saúde não consigam oferecer boas condições ao consumidor. “Quem não estiver sendo atendido pelo sistema de saúde suplementar, tende a migrar para o sistema público de saúde. Ninguém vai ficar doente em casa tomando chá”, ressalta.

Prevenção

A complementaridade entre os setores público e privado de saúde também pode ser importante para a execução de ações conjuntas na prevenção de doenças. “É preciso um esforço das duas partes para informar o consumidor a respeito do autocuidado, da atenção primária com a saúde, da importância de vacinação. Creio que temos que estruturar um tipo de ação conjunta que seja permanente”, indica.

Freitas chama ainda a atenção para a coleta de informações sistemáticas “Precisamos, urgentemente, de bases históricas com informações abrangentes sobre o setor de saúde. Temos que formar uma base de dados que sirva como fundamento para ações tanto do setor público quanto do privado”, aponta. Além de ser importante para os gestores na formulação de ações, o conhecimento é essencial para o público. “É importante que a Agência Nacional de Saúde Suplementar tenha um conjunto de informações consistentes no site dela, mas é mais importante que isso chegue na sociedade”, completa.

Referência: Correio Braziliense