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Desigualdade é pano de fundo da revolta

22 de outubro 2019

O aumento do preço do metrô é a ponta do iceberg da revolta no Chile. O pano de fundo é a desigualdade e a precariedade dos sistemas de saúde, previdência e educação. São problemas que se arrastam há anos e alguns têm sua origem na ditadura de Augusto Pinochet e abalaram a confiança no Chile, que se considerava um oásis na América Latina.

Um dos pontos mais criticados é a previdência. O modelo chileno vem da ditadura e exige que os trabalhadores depositem mensalmente cerca de 12% do salário em contas individuais gerenciadas por entidades privadas conhecidas como Administradores de Fundos de Pensão (AFP). Os AFPs investem no mercado em busca de lucro, mas não devolvem remunerações decentes e os aposentados recebem muito menos do que ganhavam quando trabalhavam a média de aposentadorias pagas em agosto foi de US$ 220, pouco mais da metade do salário mínimo (US$ 422). Paradoxalmente, militares e policiais estão em outro sistema que oferece aposentadorias mais altas.

Outra insatisfação é a educação. O ensino universitário era gratuito até 1981, quando a ditadura facilitou a criação de universidades privadas. As novas instituições se multiplicaram e tiveram liberdade para cobrar mensalidades. Ao mesmo tempo, o Estado cortou investimentos nas universidades públicas, que tiveram de cobrar tarifas para permanecerem competitivas. O resultado foi uma variedade de centros privados caros e de qualidade duvidosa, que obrigam os estudantes solicitarem empréstimos para financiar os estudos. Muitos passam os primeiros anos da carreira endividados.

O sistema de saúde também é um problema. Trabalhadores contribuem com 7% do salário em planos de saúde e podem optar pelo sistema público (Fonasa) ou privado (Isapres). Cerca de 14 milhões são afiliados à Fonasa, criticada pelo péssimo atendimento, longas filas e instalações precárias. A Isapres, que cobre os mais ricos, oferece planos mais caros e menor cobertura para mulheres e idosos, uma discriminação que Piñera tenta corrigir com uma reforma.

Outra questão é o alto custo de vida. Na última década, o preço dos imóveis subiu 150%, enquanto os salários cresceram 25%. Além do aumento do metrô, os chilenos reclamam dos 10% a mais na conta de luz e da alta dos remédios. Por fim, vem a corrupção. Nos últimos anos, escândalos envolveram militares. Há também casos de financiamento ilegal de campanha de partidos de esquerda e de direita e nenhuma vontade dos órgãos públicos de punir os culpados.

Referência: Estado de São Paulo