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Crise na saúde do Rio era previsível

15 de dezembro 2019

Defensoria e Ministério Público fazem bem em pedir a instalação de gabinete para enfrentar o colapso

A grave crise que levou a saúde do Rio ao colapso não resulta de um mal súbito. Ao contrário. Os sinais de debilidade — revelados diariamente no precário funcionamento das unidades da rede municipal ou na via-crúcis de doentes por hospitais e UPAs em busca de atendimento — eram evidentes há meses. Mas o que a prefeitura fez para evitar que o quadro se agravasse? Nada. Não surpreende portanto que essa situação de anomia tenha desembocado no caos atual, com funcionários sem receber, hospitais fechando emergências e pacientes totalmente desamparados.

Se a crise financeira é uma realidade, ela não explica por si só a calamidade na saúde. Primeiro, porque a penúria, consequência da aguda recessão de 2015/16, não é uma exclusividade do Rio, tendo atingido indistintamente todas as unidades da Federação. E as redes de outros estados não estão em coma. Ademais, a capital fluminense é beneficiada pelos royalties do petróleo. Mas a atual situação de descalabro sugere que a prefeitura possa ter cometido os mesmos erros do estado nos governos Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão — usar receitas flutuantes em gastos engessados, como o pagamento de benefícios.

A propósito, têm razão a Defensoria Pública do Estado e o Ministério Público quando questionam a gestão da saúde no Rio e cobram mais transparência. Segundo a coordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria, Thaisa Guerreiro, não faltaram recursos. A questão é que eles foram destinados a áreas não prioritárias. Já o promotor Pedro Borges diz que é importante tornar claras as escolhas, para que não fiquem dentro de uma caixa-preta.

De fato, cariocas que peregrinam por hospitais que agonizam têm o direito de saber como o prefeito Marcelo Crivella está gastando o dinheiro do contribuinte e quais as prioridades de sua gestão — se é que as tem.

De qualquer forma, diante de uma situação de emergência, é preciso agir. Defensoria e Ministério Público pedem a instalação de um gabinete de crise, com autonomia para gerir um plano de emergência contra o caos na rede municipal. O governador Wilson Witzel também criou um grupo de trabalho para enfrentar o problema — até porque a rede estadual, que tem suas deficiências, fica sobrecarregada.

Já o prefeito Crivella precisa tomar medidas à altura de uma crise que está matando — crise, aliás, que ele sequer reconhece. Ir a Brasília de pires na mão é patético. Não que não possa haver ajuda federal, mas nada que contrarie normas fiscais. É necessário que a autoridade trabalhe no plano administrativo para restabelecer o funcionamento das emergências.

Certamente não há solução mágica. Devolver à rede municipal condições mínimas para um atendimento digno à população requer uma série de medidas. Entre elas, gestão e vontade política, que, tanto quanto profissionais de saúde, medicamentos e insumos, parecem estar em falta na saúde do Rio.

Referência: Extra