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Grandes grupos estão ‘de olho’ para comprar empresas paranaenses

25 de dezembro 2019

Nas últimas semanas, notícias dando conta da venda de uma série de empresas paranaenses para grupos empresariais de outros estados ou até mesmo de outros países pegaram de surpresa muita gente. Apenas desde novembro foram quatro aquisições de grande repercussão, com o Grupo Clinipam, a Universidade Positivo e o Centro Universitário Curitiba (UniCuritiba) passando para as mãos de grupos paulistas, enquanto o Hospital Santa Cruz e o Paraná Clínicas foram adquiridos por um grupo carioca.

O ‘boom’ nos processos de M&A (sigla em inglês que significa Fusões e Aquisições) no Paraná segue uma tendência nacional. Levantamento da PwC Brasil, por exemplo, mostra que no acumulado de janeiro a setembro de 2019 teriam sido fechadas 614 transações em todo o país, volume 31% superior ao mesmo período de 2018 e o maior volume acumulado dos últimos cinco anos. Outra estimativa, da KPMG Corporate Finance, aponta que 5% dessas negociações envolve empresas paranaenses.

Luiz Fernando Bessa, sócio da Zaxo, empresa especializada em assessoria de M&A, explica que já há alguns anos os processos de aquisição de marcas paranaenses por empresas de outros estados e até mesmo de outros países vem ganhando vigor. Agora, porém, teriam atingido o ápice, e a expectativa é que até o final do ano sejam anunciadas mais novidades.

“O Paraná já tem potencial e empresas com maturidade para chamar a atenção de compradores e investidores há muitos anos. Isso é uma coisa. Outra é o quanto isso, de fato, aumentou nos últimos anos. E uma série de pesquisas comprovam que tem aumentado”, aponta o especialista. “Isso é uma prova real do quanto o empresariado daqui tem amadurecido, se sofisticado e jogado em nível mundial. O mercado está desenvolvendo mais safras de empresários sofisticados, ambiciosos”, complementa.

Mas, afinal, quais os motivos, os fatores que explicam essa ‘invasão’ de grande grupos empresariais (principalmente de São Paulo) ao Paraná? Para Bessa,um deles seria o potencial e a pujança econômica do Paraná. Outro seria o ‘saturamento’ de mercado em alguns setores em São Paulo e Rio de Janeiro.

“Há um movimento de consolidação, especialmente em dois setores em que ocorreram movimentos mais recentes (saúde e educação básica), com grandes players fazendo a aquisição de empresas menores para ganhar escala”, aponta o sócio da Zaxo. “E é natural que o Paraná, como um dos principais estados do país em termos de PIB, número de empresas, chame a atenção, até pela proximidade geográfica com o eixo do Sudeste. O Paraná hoje já rivaliza com qualquer outro estado, com exceção de São Paulo, em termos de relevância e empresas de valor”, finaliza.

A hora certa para vender

Ainda segundo Bessa, uma das lições que fica com relação às recentes aquisições de empresas paranaenses diz respeito à hora certa de o empresário se desfazer de seu negócio e passá-lo para outras mãos. Enquanto empresas de capital fechado costumam ser negociadas por múltimos de 6 a 12 vezes e as de capital aberto, por múltimplos de 12 a 15 vezes, um plano de saúde do Paraná foi negociado por um valor 26 vezes superior ao seu faturamento.

“A partir do momento que começa a connsolidação (de um setor), a competição por esses ativos acaba valorizando o ativo que será vendido. Isso reflete no próprio mercado de capitais, empresaas listadas na bolsa”, explica o especialista, apontando ainda quais os mercados que devem permanecer aquecidos nos próximos tempos: o setor de alimentos, o de tecnologia e o de energia.

“E num chute, uma projeção mais arriscada, como um otimista por natureza, apostaria também em infraestrutura. Engrenando o país, colocando nos trilhos, tende a ter muito potencial”, finaliza.

Empresas paulistas são as principais ‘invasoras’

Na maior parte das negociações de grande porte envolvendo empresas paranaenses a compradora costuma ser oriunda de São Paulo, dado que não chega a surpreender, se considerado o poderio econômico do estado vizinho. De acordo com dados do IBGE, o estado de São Paulo possui cerca de 1,46 milhão de empresas, sendo responsável por 32,2% do Produto Interno Bruto do Brasil – apenas São Paulo capital é responsável por 10,62% da soma de todos os bens e serviços finais produzidos no país. Para comparação, o Paraná, que possui 411.669 empresas, possui um PIB que equivale a 6,4% do total nacional, sendo que Curitiba, sozinha, responde por 1,29%.

“Esses movimentos (de aquisição de empresas) tipicamente começam por São Paulo, principal mercado do país no meio empresarial. A partir de um dado momento não tem mais ativos de porte ou qualidade no mercado paulista, até no eixo Rio-São Paulo, e aí as empresas começam a ter de abrir o leque para fora desse eixo“, explica Luiz Fernando Bessa, sócio da Zaxo, empresa especializada em assessoria de M&A.

Mais negócios devem ser fechados nos próximos meses

Fundada há quase 20 anos em São Paulo, a Zaxo estabeleceu sua matriz em Curitiba por volta de 2012. A mudança, conta Luiz Bessa, aconteceu justamente pelo fato de os sócios vislumbrarem boas oportunidades no mercado paranaense. “Há muitos anos notamos que existe no Paraná e em Santa Catarina uma pujança muito grande, um nível de maturidade empresarial bastante grande, que chama a atenção de grandes players”, diz.

Para os próximos meses, inclusive, a expectativa é de mais negócios sendo fechados. “Podemos esperar mais transações, sem dúvida”, garante Bessa, revelando ainda que na última semana a Zaxo assessorou a aquisição de uma outra empresa paranaense da área de saúde e que em breve devem participar da conclusão de outra transação, envolvendo uma empresa da área de tecnologia. Por questões contratuais, contudo, o nome das duas empresas que estão sendo vendidas são mantidos em sigilo.

“Esse ano demonstra essa pujança do mercado local e isso só tende a aumentar. O mercado está dando sinais de retomada e há crescimento no apetite de compradores e investidores. Nos próximos dois, três anos, teremos uma fase bastante agitada, bastante aquecida de mercado.”

Aquisições recentes de grandes empresas paranaenses

Setembro de 2018

Hospital Evangélico e Faculdade Evangélica do Paraná

Comprador: Consórcio ”MACK-HE Dourados”, formado pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie e a Associação Beneficente Douradense

Valor estimado da negociação: R$ 225 milhões

Junho de 2019

Becker’s Indústria de Nutrioção Animal Ltda

Comprador: Cargill

Valor estimado da negociação: Não revelado

Agosto de 2019

Serrados e Pasta de Celulose (Sepac)

Compradora: Softyx (braço da chilena Empresas CMPC)

Valor estimado da venda: R$ 1,3 bilhão

Outubro de 2019

Saubern

Compradora: Fresenius Medical Care

Valor estimado da negociação: Não divulgado

Novembro de 2019

Grupo Clinipan

Comprador: Grupo NotreDame Intermédica

Valor estimado da negociação: R$ 2,6 bilhões

Dezembro de 2019

Universidade Positivo

Comprador: Cruzeiro do Sul Educacional

Valor estimado da negociação: R$ 500 milhões

Hospital Santa Cruz e Paraná Clínicas

Comprador: Grupo Rede D’Or São Luiz

Valor estimado da negociação: R$ 900 milhões

Centro Universitário Curitiba (UniCuritiba)

Comprador: Ânima Educação

Valor estimado da negociação: R$ 130 milhões

Autor: Rodolfo Luis Kowalski
Referência: Bem Paraná