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Previdência privada espera crescer no pós-reforma

20 de janeiro 2020

Setor quer explorar o que as mudanças do governo não cobrirão

A aprovação da reforma da Previdência em novembro do ano passado, que mudou as regras e a idade de aposentadoria dos brasileiros, abriu uma nova oportunidade para fundos de previdência privada.

Para Luís Ricardo Martins, presidente da Associação Brasileira de Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), a previdência complementar fechada deve crescer neste ano com a obrigatoriedade, definida pelo texto da reforma, de que estados e municípios criem fundos de pensão para complementar a aposentadoria dos servidores em até dois anos. “É uma nova janela de oportunidades que se abre para nosso segmento”, diz Martins.

A Abrapp encerrou o terceiro trimestre de 2019 com um montante de R$ 944 bilhões em patrimônio dos fundos de pensão, o equivalente a 13,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Para o primeiro trimestre deste ano, a estimativa é que esse valor suba para R$ 1 trilhão. O rendimento médio dos fundos foi de 8,18%, acima dos 6,78% da Taxa de Juros Padrão utilizada para reajuste dos benefícios.

Um fator que Martins considera importante para o setor da previdência é o aumento da expectativa de vida, e que a aprovação da reforma mostrou que há uma demanda reprimida neste quesito. “Com a reforma da Previdência, as pessoas vão ter que trabalhar mais tempo, contribuir mais tempo e receber um benefício menor. Como elas vão ter qualidade de vida se vão receber menos e viver mais”, questiona.

Recentemente, a Abrapp lançou dois novos planos previdenciários que permitem formas diferentes de contribuição e usufruto. Um deles é o Plano Família, que permite ao contribuinte incluir como beneficiários parentes de até terceiro grau. Já o PrevSonho é um plano no qual o participante pode usar uma parte dos recursos contribuídos para a realização de um “sonho”, como intercâmbio ou atividades acadêmicas. Após 10 anos, o valor do resgate pode chegar a 70%. Após cinco anos, fica em 50% das reservas

Para Rodrigo Sisnandes, presidente da Fundação Família Previdência, é necessário que pessoas mais jovens pensem a longo prazo quando se trata de contribuição. “Quanto mais cedo se entrar para a previdência, melhor, porque o esforço vai ser menor”, explica. “A procura está cada vez maior, e o desafio está em informar as pessoas sobre as opções que elas têm no mercado.”

Maior fundo de pensão do Rio Grande do Sul, a Fundação Família Previdência tem mais de 17 mil participantes e atinge em torno de 30 mil pessoas entre pensionistas, aposentados e dependentes. Com um patrimônio de aproximadamente R$ 7,3 bilhões, a entidade administra 12 fundos de pensão e paga em torno de R$ 650 milhões anuais em benefícios. Em 2019, foram 2.242 novos participantes, com a rentabilidade fechando aos 20,8%. A expectativa para 2020 são 2,5 mil novos participantes.

No Brasil são operadas duas modalidades de previdência privada. O Plano Gerador de Benefícios Livres (PGBL) é indicado para quem faz a declaração completa do Imposto de Renda, permitindo ao contribuinte abater do imposto o que investiu durante o ano no plano, com limite de 12% da renda bruta. No saque desse dinheiro se paga imposto sobre o valor total resgatado.

Já o Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL) é indicado para pessoas que são isentas de Imposto de Renda, ou que o declaram de forma simplificada. Nele, o contribuinte não pode abater as aplicações feitas durante o ano na hora de declarar o Imposto de Renda. Entretanto, no momento do saque, o imposto a ser pago é apenas sobre o valor dos rendimentos e não no total acumulado.

Sisnandes explica que, no PGBL, há opções de planos ofertados pelo sistema financeiro e pelas entidades sem fins lucrativos. “De longe é mais vantajoso o sem fins lucrativos, porque emprega 100% da rentabilidade e o custo é menor”, afirma. “O setor financeiro oferece esse produto, mas não como produto previdenciário, e sim como financeiro, porque tem lucro e alta rotatividade. A pessoa que faz plano de previdência tem que pensar realmente na aposentadoria”, completa.

A empresária Angela Passos contribui para o plano Precaver do sistema Unicred, instituição financeira que, no Rio Grande do Sul, possui 12 cooperativas que representam 61 mil cooperados. Ela conta que vê essa contribuição como uma segurança dupla. Com 27 anos de trabalho quase ininterrupto, Angela se viu prejudicada pela reforma da Previdência, mas recorda que sempre ouviu da mãe o conselho de que “não poderia viver só do INSS”.

A empresária está satisfeita com a modalidade de renda fixa com tabela de tributação progressiva e planejamento de resgate da aposentadoria aos 60 anos. “Observo o comportamento e a rentabilidade que foi apresentada pelo meu banco, que é cooperativa, e tem taxas de administração muito baixas e rentabilidades muito boas”, diz.

Autor: Carlos Villela
Referência: Jornal do Comercio RS