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Epidemia subterrânea

03 de abril 2020

Sem notificação adequada, autoridades pilotam às cegas um bólido em aceleração

À medida que progride a síndrome respiratória Covid-19, acumulam-se indícios de que avança em ritmo analogamente epidêmico a subnotificação da doença.

Números internacionais causam espanto não só pela marca de 1 milhão de infectados como pela dispersão inverossímil nas razões entre casos e óbitos, a sugerir que muitas nações não logram captar a dimensão correta do flagelo.

Como explicar que países europeus com nível de renda similar apresentem proporções tão díspares? Na Alemanha sucumbe apenas 1,2% dos que contraem o coronavírus, contra chocantes 11,9% na Itália.

Diferenças nos respectivos sistemas de saúde poderiam explicar parte dessa variação, não toda ela.

No Brasil não poderia ser diferente, ou pior, dada a precariedade da estrutura de vigilância. Aqui faltam de modo gritante testes para diagnóstico do Sars-CoV-2 e pessoal qualificado para executá-los.

No estado de São Paulo, epicentro da epidemia, o principal laboratório público — Instituto Adolfo Lutz — tem represados 16 mil exames por concluir. Mas tem capacidade para apenas 1.200 por dia, e os pedidos de hospitais e unidades do SUS aumentam a cada dia.

Esta Folha registrou que vários cemitérios paulistanos recebem a cada dia entre 30 e 40 corpos de prováveis vítimas da Covid-19, mas sem confirmação por testes.

Outro indício de subnotificação surgiu com o salto de casos de síndrome respiratória monitorados pela Fiocruz. Da média histórica de 250 internações por semana, na primeira quinzena do mês passado já eram mais de 2.000 e, duas semanas depois, quase 6.000 (houve ligeira desaceleração desde então, aponta a entidade).

Há duas providências mais urgentes para estancar a sangria de confiabilidade nos dados. A primeira é aumentar de forma vertiginosa a testagem; nesse sentido, o anúncio da chegada de 500 mil exames sorológicos da China, primeiro lote de 5 milhões de unidades até o final de abril, é auspicioso.

A outra prioridade é padronizar nacionalmente o conceito de casos suspeitos a notificar e testar, pois existe excessiva variação de critérios entre estados e municípios. Cabe ao Ministério da Saúde coordenar essa sistematização.

Quanto aos testes, o governo paulista poderia dar o exemplo e informar diariamente ao público quantidades disponíveis, amostras recebidas, exames ainda em processamento e resultados obtidos.

Referência: Folha de São Paulo