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50% dos pacientes graves têm menos de 60

14 de abril 2020

Estado de SP teve 1.193 internados não idosos até dia 8; parte tinha doença crônica, mas há nº crescente de infectados jovens e saudáveis

Embora a mortalidade por covid-19 seja maior entre idosos, metade dos casos graves da doença no Estado de São Paulo ocorreu em pessoas com menos de 60 anos, segundo estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde.

Até o dia 8 de abril, último dado disponível, 2.355 pessoas foram hospitalizadas em hospitais paulistas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada pelo coronavírus. Dessas, 1.193 (50,6%) não eram idosos. Os números detalhados por faixa etária mostram que 816 internados tinham entre 40 e 59 anos e 352, de 20 a 39 anos. As crianças e adolescentes, que raramente apresentam complicações, têm número baixo de internações, mas não estão completamente fora de risco. Foram 25 casos graves na população de 0 a 19 anos, incluindo duas mortes.

De acordo com especialistas, parte dos internados abaixo dos 60 anos faz parte de outros grupos de risco, como pacientes com doenças crônicas. Há, porém, um número crescente de pessoas jovens e saudáveis, sem nenhuma doença preexistente, que também desenvolvem pneumonia e outras complicações da infecção.

“Eu mesmo cuidei de vários pacientes na faixa dos 40 anos, sem comorbidades, que ficaram em estado muito grave. O fato de a letalidade ser maior em pessoas com fatores de risco não deixa jovens e pessoas saudáveis isentas de desenvolverem complicações. O que difere é que, caso internados, eles têm mais chance de sobreviver porque têm uma reserva pulmonar maior para aguentar a doença”, explica José Eduardo Afonso Jr., pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Na unidade, 60,5% dos 314 pacientes que estão hospitalizados ou que já tiveram alta tinham menos de 60 anos.

O especialista explica que o cenário se torna ainda mais preocupante se chegarmos a uma situação em que o sistema de saúde não consiga dar assistência adequada a todos os doentes. “Uma pessoa saudável tem uma condição de responder melhor à infecção, mas se ela não conseguir um respirador ou se for internada em um local que não siga os protocolos existentes, ela corre o risco de morrer como qualquer outro paciente”, diz Afonso Jr.

Para o intensivista Ederlon Rezende, membro do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e médico no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, os casos graves e mortes por covid-19 geralmente estão relacionados a uma resposta inflamatória exagerada do nosso organismo, o que pode acontecer em jovens saudáveis também. “Quando o nosso corpo recebe alguma agressão, nosso organismo tenta nos defender, mas essa resposta pode ser tão intensa que acaba nos prejudicando, levando ao comprometimento de diferentes órgãos. E, apesar de o grupo de risco ser formado por pessoas acima de 60 anos ou com comorbidades, tem sido muito frequente ver pacientes jovens internados nas UTIs”, destaca.

Foi justamente o que aconteceu com a empresária Juliana Gorla Villas Boas, de 37 anos. Adepta de uma vida mais saudável e sem doenças crônicas, ela ficou internada cinco dias no fim de março, dois deles na UTI, como conta o marido, o advogado Fernando Bruno Romano Villas Boas, de 37 anos. “Ela começou com uma tosse, depois veio a dor de cabeça. Foi duas vezes ao hospital e retornava para casa porque não era grave. Depois de uma semana de sintomas, começou a falta de ar e ela teve de ser internada”, conta ele.

Já em casa, Juliana conta que os dias na UTI foram os mais difíceis. “Fui pega de surpresa. Tento me alimentar bem, tenho uma horta em casa, procuro só comer alimentos orgânicos, nunca fumei. Não imaginei que poderia ter um quadro grave. Quando cheguei à UTI, sem poder receber visita nem levar celular e vendo um monte de gente entubada, fiquei angustiada. Não sabia quanto tempo ia ficar ali nem se ia conseguir sair. Ficava rezando e contando os minutos”, diz ela.

Autor: Fabiana Cambricoli
Referência: Estado de São Paulo