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O ‘Economista da Saúde’

17 de abril 2020

Quem acompanhou os bastidores da saída de Luiz Henrique Mandetta do ministério da Saúde sabe que uma das principais razões para a escolha do oncologista Nelson Teich é o perfil discreto. Nas palavras de um amigo de Bolsonaro e do novo ministro, o presidente estava incomodado com um subordinado que disputava holofotes com ele e tem convicção de que Teich não fará isso pois jamais teve atuação política. Para os profissionais de saúde que o conhecem, o grande desafio de Teich vai ser atravessar a pandemia e, ao mesmo tempo, conhecer o Sistema Único de Saúde (SUS), com o qual pouco trabalhou, além de manter a defesa do isolamento horizontal, diferente da tese usada pelo presidente Jair Bolsonaro, de restringir a circulação apenas de idosos.

Em artigo recente sobre a pandemia, ele defendeu o isolamento horizontal. “Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da Covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento”, escreveu, no dia 3 de abril.

Segundo Teich, o isolamento vertical, defendido por Bolsonaro, “não representaria solução”.

Médico formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Teich é descrito por ex-colegas como discreto, técnico e dono de um currículo com estatura para o cargo. Cursou oncologia no Instituto Nacional de Câncer (Inca) e é doutor em Ciências da Saúde e Economia da Saúde pela Universidade de York, do Reino Unido.

Em 1990, fundou as Clínicas Oncológicas Integradas (COI), um lugar em que, segundo uma amiga daquele tempo, “todos os médicos queriam trabalhar”. Os médicos tinham participação societária, podiam fazer pesquisa, a excelência era estimulada. Por essa época, ele deixou a prática da oncologia e passou a ser identificado como um “economista da saúde”.

O COI deu tão certo que Teich recebeu uma proposta e o vendeu em 2015 para a UHG/Amil. Agora ele é sócio de uma consultoria de serviços médicos chamada Teich Health Care. Também trabalhou na Agência Nacional de Saúde (ANS).

Lígia Bahia, professora da pós-graduação em Saúde Coletiva da UFRJ, diz que “é uma pessoa focada em gestão de saúde”, mas enfrentará a inexperiência com o SUS. Ela compara a situação do ministro à do timoneiro do Titanic ao se aproximar do iceberg:

– A diferença é que ele sabe que o iceberg, a pandemia de Covid-19, está lá, na escuridão à sua frente. Ele conhece o mundo da ciência e da medicina, tem esse conhecimento para navegar, mas terá a autonomia política para desviar do iceberg e salvar o Titanic?

Antes da chegada ao cargo, Teich colaborou com a campanha de Bolsonaro em 2018, e, mais recentemente, com a equipe de Mandetta. De setembro de 2019 a janeiro deste ano, foi consultor do Ministério da Saúde.

Autor: Ana Lúcia Azevedo, Juliana Dal Piva e Juliana Castro
Referência: O Globo