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Bilionário que foi para o Ministério da Saúde diz que Brasil pode exportar respiradores em agosto

05 de junho 2020

Carlos Wizard afirma que mapeou indústria nacional para reduzir preço de compra do produto

Após ser promovido de conselheiro a secretário de ciência e tecnologia do Ministério da Saúde, o bilionário Carlos Wizard afirma que o Brasil entrou na pandemia com dificuldades de comprar respiradores para tratar seus doentes, mas poderá começar a exportar o produto em agosto.

O empresário, que tem marcas como KFC e Pizza Hut no país, diz que mapeou os fornecedores brasileiros e que hoje há sete fabricantes devidamente credenciados.

Wizard diz ter concluído que é possível comprar os respiradores no Brasil pela metade do preço do importado, levando a pasta a cancelar suas intenções de compra dos produtos no exterior.

“Quando eu cheguei, fizemos a seguinte posição: não vamos comprar nenhum respirador estrangeiro acima de US$ 10 mil. Já foi uma determinação clara. E a segunda: vamos fomentar a indústria nacional”, diz Wizard que estima em US$ 20 mil a US$ 30 mil os importados concorrentes.

O empresário, que defende o uso da cloroquina, disse ao Painel S.A. no mês passado que o governo procurou a Índia para comprar 10 toneladas da matéria prima.

Wizard afirma que Bolsonaro tende a manter o ministro interino Eduardo Pazuello no posto até o fim da crise do coronavírus, conforme o próprio presidente afirmou no mês passado.

Pela sua experiência de empresário, o que está faltando no Ministério da Saúde?

Quando eu cheguei em Brasília, há pouco mais de um mês, a minha missão era como conselheiro. A primeira missão que o ministro Eduardo Pazuello me passou foi buscar fornecedores confiáveis para trazer respiradores ao Brasil. Foi uma missão que recebi com segurança pois tenho uma experiência vasta no mundo corporativo.

Fiz mapeamento dos fornecedores do Brasil e do exterior. E constatei que os estrangeiros estavam oferecendo respiradores ao Brasil a US$ 20 mil, US$ 30 mil. Lamentavelmente, por falta de experiência, até dos próprios servidores, sejam prefeitos ou governadores, eles, no desespero e na ansiedade de atender a população, acabaram fazendo aquisições milionárias no valor dos aparelhos que estavam disponíveis no mercado. Vieram respiradores da China, da Europa.

Quando eu cheguei, fizemos a seguinte posição: não vamos comprar nenhum respirador estrangeiro acima de US$ 10 mil. Já foi uma determinação clara. E a segunda: vamos fomentar a indústria nacional. Mapeamos os possíveis e potenciais fabricantes nacionais, e pasme: temos hoje sete indústrias brasileiras que estão produzindo os respiradores já com licenciamento, credencial e aprovação da Anvisa. Estão saindo pela metade do preço que se pretendia comprar no exterior. A partir dessa constatação, nós cancelamos qualquer intenção de compra de respiradores no mercado estrangeiro.

Quando cancelaram o estrangeiro?

Nesta segunda-feira (1º), tivemos uma reunião na Casa Civil, onde estava o ministro Braga Netto, o da Tecnologia, Marcos Pontes, Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, Eduardo Pazuello, da Saúde, e representantes do Ministério da Economia. Ficou evidente que temos condição de atender o mercado nacional e, em breve, teremos condições de exportar os nossos respiradores ao mercado estrangeiro.

Esse número de fabricantes nacionais credenciados, sete, vai aumentar?

Diariamente, meu WhatsApp é bombardeado por possíveis potenciais fornecedores de tudo.

Qual é essa sua previsão de fornecer para o exterior?

Em breve, a partir de agosto. É uma virada de jogo. De dependentes nós passamos a exportadores.

E o insumo da cloroquina?

Inicialmente não havia máscara no Brasil. Virou aquela correria. Hoje, tem em toda esquina, não é mais necessidade. Depois foram os respiradores. Agora, qual é a próxima necessidade? A matéria prima para a cloroquina e a hidroxicloroquina, que vem da Índia. Por outro lado, a Índia tem uma das maiores populações mundiais. No primeiro momento, o governo fez uma reserva de mercado para atender a sua própria população. A intenção do Brasil é comprar dez toneladas dessa matéria prima e para isso precisamos envolver Ministério da Economia, das Relações Exteriores, Casa Civil e até o presidente. Foi preciso ligar para o presidente da Índia para liberar essa exportação para o Brasil.

O presidente fala “e daí” sobre a doença, diz que a morte é o destino de todos nós, e você mesmo, no início do surto, alertou sobre a gravidade. E então?

A intenção do presidente é salvar o maior número de vidas possível. Ele age baseado em evidências técnicas e científicas. Se a comunidade científica internacional aponta estudos pela experiência e pela prática, que uma certa conduta científica vai salvar o maior número de vidas da população, é óbvio que ele, que é o nosso comandante maior, vai defender e divulgar.

O Ministério da Saúde está 100% alinhado com o presidente. Eu acho um absurdo essa questão ideológica que se criou em torno da cloroquina. O medicamento está no mercado há mais de 70 anos. Na Amazônia, você vai consumir normalmente no protocolo da malária. E a hidroxicloroquina, para pacientes com lúpus, eles vivem por décadas.

Eu não entendo por que se criou uma questão ideológica contrária a essa orientação técnica. Meu receio é que, amanhã, se o presidente Bolsonaro anunciar em Brasília: ‘gente, se vocês tomarem um copo de Coca- Cola por dia, vocês vão ficar imunizados contra a Covid-19’, meu receio é que, no dia seguinte, a metade da população deixe de tomar Coca-Cola.

É simplesmente uma questão de lógica. Se usam por décadas a hidroxicloroquina, em cinco dias, que dano vai causar para o sujeito?

Esse seu novo cargo foi ocupado por pessoas ligadas à área da saúde. Você vai ser o primeiro secretário nesta função que não é médico. Que tipo de deficiência isso vai trazer na sua atuação?

Sou formado em ciência e tecnologia pela Universidade Brigham Young, em Utah, nos Estados Unidos, tem que começar por aqui. Se você parar para analisar quem é o presidente da Organização Mundial da Saúde, ele não é médico. Quem é atualmente o ministro interino da Saúde? Ele não é médico. Temos o compromisso de ouvir a comunidade científica e buscar as melhores práticas, as melhores experiências e resultados no combate à Covid-19. Mas não necessariamente precisa ser alguém que está vivenciando uma UTI diariamente, fazendo cirurgias e procedimentos médicos.

No dia 19 de maio, o presidente disse pela primeira vez que Pazuello ficaria no cargo até acabar a crise. Ele continua com essa ideia?

Posso dizer com toda a segurança que o próprio presidente está tendencioso a manter o ministro Pazuello por tempo indeterminado, até superar totalmente a crise da Covid-19. Não somente isso, mas os prefeitos, os governadores, os líderes da comunidade médica têm aprovado e elogiado a atuação do ministro interino, pela sua capacidade de visão, atuação, resposta rápida às demandas, comunicação, articulação. Eu não ficaria surpreso se ele permanecesse interinamente, continuamente, até o final desta crise.

Autor: Joana Cunha
Referência: Folha de São Paulo