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Seguro ‘liga e desliga’ ganha espaço com celular, bike e casa

19 de junho 2020

Depois de carros, empresas ampliam opções de cobertura intermitente 

Nos últimos meses, seguradoras vêm lançando no mercado opções de cobertura sob demanda. Depois de um foco inicial em veículos, o próximo passo é ampliar o cardápio para bicicletas, patinetes, celulares, casa e até plano de saúde.

A diferença desse tipo de seguro para o tradicional é que o cliente pode contratar coberturas pontuais, pagando somente pelo que usar. Um seguro de automóvel, por exemplo, pode ser contratado apenas por 24 horas para uma viagem até a praia.

A modalidade, conhecida como seguro “liga e desliga” ou “pay per use”, surgiu no mercado brasileiro após circular da Susep (Superintendência de Seguros Privados) publicada em agosto do ano passado permitindo a comercialização de seguros com vigência reduzida e por período intermitente.

Há dois formatos principais. No primeiro, o cliente paga uma assinatura mensal e mais um valor variável de acordo com a utilização.

Esse é o modelo oferecido no seguro de automóveis da Thinkseg. Os planos de assinatura começam em R$ 25 por mês, mais um valor calculado de acordo com a quilometragem utilizada no período.

O plano da empresa é incluir até o final do terceiro trimestre bicicleta e patinete entre as opções. A ideia é que o usuário possa ir trocando a cobertura conforme trocar o meio de locomoção utilizado.

“O pay per use vale para todos os produtos que têm algum tipo de comportamento pessoal para ser mensurado. Nosso próximo produto a ser lançado fora da categoria de automóveis, por exemplo, é um seguro saúde. A ideia é que você pague uma assinatura e um valor vairável a mais pelo quanto usar”, diz André Gregori, presidente da Thinkseg.

Questionado sobre como funcionariam as regras de carência nessa modalidade, o empresário afirmou que ainda não pode detalhar o plano, mas que o produto deve ser lançado até o final deste ano.

A Thinkseg pretende ainda lançar um seguro de vida em moldes parecidos, calculado segundo os hábitos de vida do cliente mensurados pelo celular (prática de exercícios diários e número de horas de sono, por exemplo).

Um segundo formato de pay per use é mais literal: nele, não há mensalidade, e o cliente paga apenas pelo período de cobertura utilizado, calculado a partir do momento em que ele próprio liga e desliga a função pelo seu celular.

Esse é o modelo oferecido pela Argo para automóveis. O valor cobrado começa em R$ 40 para um período de 24 horas em rodovia e cobre perda total por colisão, diz Newton Queiroz, presidente da seguradora.

De acordo com o empresário, o produto tem como alvo dois perfis de cliente, sobretudo: a classe média baixa, que tem interesse em um seguro mas não consegue pagar atualmente, e jovens que usam o carro eventualmente.

Queiroz afirma que os próximos passos sao oferecer essa modalidade de pay per use para bicicletas, equipamentos portáteis (como câmeras fotográficas, de vídeo e laptops) e residências.

Nesse último caso, a idea é que o cliente contrate um mix de cobertuas: uma apólice anual contra incêndio e danos elétricos e outra contra roubo por um período limitado, válida apenas quando o morador for viajar.

O plano da Argo é lançar essas novas opções no mercado entre o segundo semestre deste ano e 2021.

Alcançar a classe média baixa também é o objetivo da Kakau, empresa que oferece seguros para residência, celular e bicicleta no modelo de assinatura mensal. O próximo passo é oferecer o pay per use para bicicletas a partir de setembro.

Nesse produto, o cliente poderá contratar uma cobertura por horas ou minutos pagando um preco dinâmico (método utilizado pela Uber, por exemplo).

“Se você for pedalar entre São Paulo e Santos, o aplicativo vai te mostrar o valor da cobertura considerando a quilometragem, a velocidade média e o tipo de bicicleta”, diz Henrique Volpi, sócio da Kakau.

O seguro cobrirá roubo e queda. A inclusão de um seguro de vida do ciclista está sendo negociada, segundo o empresário.

A Onsurance oferece cobertura semelhante para automóveis. Nesse modelo, o cliente compra créditos de seguro de modo semelhante a um celular pré-pago, consumidos a partir do momento em que o segurado ativa a cobertura até o momento em que ela é desligada.

De acordo com a seguradora, cada cliente gasta em média R$ 70,25 por mês. Adilair Silva, cofundador da Onsurance, diz que a utilização do produto caiu durante a pandemia, mas que a procura disparou.

“O aumento do número de pedidos se dá em parte pelas pessoas ficarem mais sensíveis a nossa proposta de uso racional… Ou seja, o nosso produto faz ainda mais sentido nestes tempos de restrição da circulação das pessoas”, afirma o empresário.

Os seguros pay per use, no entanto, também geram preocupação. Marcelo Blay, presidente da distribuidora Minuto Seguros, questiona o que acontece com o segurado que tem o carro roubado em um momento que esqueceu de ligar a cobertura, por exemplo. “Como ele fica?”

Blay cita também problemas com zonas em que o monitoramento da cobertura falhe por problemas de sinal. “Acho o seguro intermitente um produto ótimo, que vem para ficar, mas ainda precisamos aprender muito com ele”, afirma.

Autor: Fernanda Perrin
Referência: Folha de São Paulo