Capitolio


‘Talvez nunca exista vacina’, diz diretor da OMS

04 de agosto 2020

Segundo o diretor-geral da agência, ‘não existe bala de prata no momento e talvez nunca exista’; declaração preocupa especialistas

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, disse que a imunização contra a covid-19 pode não ser alcançada. Se a vacina for descoberta, segundo ele, talvez a proteção oferecida dure alguns meses.

O diretor-geral da Organização Mundial Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou ontem que vacina e cura para a covid-19 podem não se tornar realidade. De acordo com a entidade, há 164 vacinas em desenvolvimento: 25 estão em fase clínica e 139 em pré-clínica.

“Não existe bala de prata no momento e talvez nunca exista”, disse o diretor-geral. Ele acrescentou que, no momento, há imunizações na última fase de testes, mas existe a possibilidade de que nenhuma delas ofereça proteção. “Há preocupação de que talvez não tenhamos uma vacina que funcione. Ou que a proteção oferecida possa durar apenas alguns meses, nada mais.”

Tedros declarou que não é possível saber como tudo ficará até que se concluam os testes. No entanto, disse que ainda existe esperança e os estudos estão sendo desenvolvidos a uma velocidade sem precedentes. Ele também esclareceu que a maioria da população permanece vulnerável à infecção mesmo em países que lidaram com surtos graves. No geral, segundo a organização, estudos sorológicos mostram que menos de 10% desenvolveram anticorpos contra o vírus, indicando que tiveram a doença. A prevalência pode ser maior em meio a alguns grupos, como profissionais de saúde.

A OMS, mais uma vez, reforçou a necessidade de aplicar o conjunto das medidas disponíveis que funcionam para suprimir a transmissão do novo coronavírus até que haja uma vacina ou remédio. A organização indica que países façam a identificação dos casos, rastreamento de contatos e isolamento de quem está infectado.

Para indivíduos, recomenda-se o distanciamento social, a higienização das mãos com constância, o uso de máscaras onde apropriado e cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir. “Se fizermos tudo, se adotarmos uma abordagem abrangente, podemos mudar isso”, afirmou o diretor-geral.

Na sexta-feira, o comitê de emergência da agência se reuniu e manteve a categoria de emergência global de saúde pública para a pandemia. Ontem, o diretor-geral relembrou que é a primeira vez que acontece um surto mundial de um coronavírus que “combina dois fatores perigosos: se espalha rápido e, ao mesmo tempo, mata”.

Letalidade. A líder técnica de resposta à doença da OMS, Maria Van Kerkhove, afirmou que 0,6% das pessoas infectadas por coronavírus morrem. “Pode parecer que não é muito. Mas é um número bem alto, se você pensar num vírus que se transmite com facilidade”, disse após falar sobre os estudos científicos que chegaram a essa média. O diretor do programa de emergência da agência, Michael Ryan, acrescentou que a taxa da influenza A, responsável pela pandemia de 2009, era muito menor, com uma morte a cada 10 mil doentes.

Embora a porcentagem de mortes entre os casos diagnosticados seja maior, quase 4% – são 17,5 milhões de infecções e 680 mil óbitos registrados no mundo, Maria esclareceu que a letalidade real da covid-19 deve ser menor porque muitos casos leves não são detectados.

Especialistas. A declaração do diretor-geral da OMS lançou um ar de pessimismo sobre as centenas de testes sendo realizados em busca de uma imunização para a doença.

Para Flávio da Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais, a posição já foi considerada antes e é bastante cautelosa. “Temos no momento várias vacinas candidatas que estão em fase clínica, algumas em fase 3. A fala vem em cima da questão de ser teste e a taxa de sucesso das que entram em fase clínica, em humanos, é de 10%”, diz o especialista. Com base nessa proporção histórica, ele diz acreditar que teremos uma vacina, mas existe um temor de a taxa de insucesso ser maior pelas circunstâncias em que a produção de um imunizante está sendo feita.

A infectologista Nancy Bellei, pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que a declaração do diretor da OMS preocupa, uma vez que, ao longo da pandemia, a entidade tem recuado em algumas manifestações. “A OMS tem pecado um pouco nesse sentido”, avalia.

Vacinas costumam demorar dez anos ou mais entre o início das avaliações e a distribuição. Fonseca menciona que a mais rápida até hoje foi a de ebola, feita em cinco anos.

Referência: Estado de São Paulo