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Crise econômica causada pela pandemia aumenta procura por seguro de vida

13 de agosto 2020

A pandemia do novo coronavírus provocou uma recessão econômica no Brasil, evidenciou a desigualdade social e alavancou os índices de pobreza. Os efeitos devastadores de cinco meses de isolamento e ruptura da atividade econômica serão sentidos pelos próximos anos e a recuperação será lenta e gradual. Além dos desempregados, milhares de profissionais liberais viram sua renda cair drasticamente. E, pela primeira vez em décadas, o brasileiro percebeu a importância de ter reservas financeiras para encarar momentos ruins, sejam eles causados por desemprego, pandemia, crises ou problemas de saúde.

Culturalmente, o brasileiro não é adepto de poupar dinheiro. Pesquisas revelam que, além de não economizar, nós também não nos preocupamos em nos precaver contra os imprevistos: apenas 15% da nossa população tem algum seguro de vida. Segundo um estudo realizado pela Universidade de Oxford, a média mundial é de 32%.

Nas economias mais desenvolvidas, esse índice é ainda mais alto que a média global. Enquanto nos Estados Unidos, 80% têm um seguro de vida, no Japão esse percentual ultrapassa 90% da população. Em Hong Kong, 16% do PIB do país é direcionado para seguros. No Brasil, esse índice é de 4%, sendo que apenas 1,5 % vai para seguro de vida e proteções de saúde.

Nesses países, considerável parte da população está preparada para encarar meses de suspensão das atividades econômicas sem prejuízo orçamentário. Aqui, o brasileiro aprendeu na dor que precisa mudar sua relação com o dinheiro e, efetivamente, fazer um planejamento financeiro que lhe permita ter a segurança de sustentar a família diante de vários cenários.

Com esses dados, não é difícil imaginar quais economias terão uma recuperação mais ágil após o fim da pandemia. Quanto mais empobrecida uma sociedade, maior a dependência dela em relação a políticas públicas de distribuição de renda. Com gastos cada vez maiores nestes setores, menor a capacidade de investimento do Estado em áreas como a infraestrutura, que têm potencial de movimentar a economia. Assim, mais difícil e lento deverá ser o processo de recuperação econômica.

A boa notícia é que finalmente o brasileiro parece ter se convencido da importância de planejar sua vida financeira. Segundo o Sindicato das Seguradoras Norte e Nordeste (Sindseg), a procura por seguros de vida dobrou após a pandemia. O aumento entre as seguradoras virtuais chegou a 100%. Em outros segmentos, o salto foi de 150%.

Antes da crise provocada pelo novo coronavírus, a Reforma da Previdência já havia despertado o sinal de alerta em muitos brasileiros. Após o endurecimento das regras para aposentadoria, pesquisas revelaram que 56% dos brasileiros disseram ter vontade de fazer um seguro de vida. A Reforma influenciou essa tomada de consciência: as pessoas estão começando a entender que o INSS pode não ser suficiente para garantir a dignidade na aposentadoria.

Mas foi preciso uma tragédia em escala global para os brasileiros perceberem a importância de planejar o orçamento com o olho no futuro. E isso acontece porque nunca passamos por guerras e grandes crises que exigissem um planejamento de longo prazo. As nossas crises sempre fizeram ao contrário, nos direcionaram para problemas de curto prazo. Era a inflação que crescia de um dia para o outro, e as pessoas faziam transações overnight. Era o plano financeiro e monetário que mudava o tempo todo. Ninguém guardava dinheiro, não fazia grandes investimentos no longo prazo. No máximo, as pessoas aplicavam o dinheiro em imóveis e criou-se uma cultura de que imóvel é um bom investimento.

2020 chegou e as circunstâncias provaram que não podemos mais conduzir nossa vida sem pensar no futuro. É preciso organizar nosso orçamento de forma que ele nos dê a mínima garantia de passar por crises como a que estamos vivendo com certa dignidade. A hora de mudar é agora.

Autor: Yuri Utida
Referência: Estadão on-line