Capitolio


“Temos 15 targets para possíveis aquisições”, diz CFO da Hapvida

14 de agosto 2020

De tempos em tempos, uma empresa chama a atenção do mercado por adotar uma estratégia agressiva de crescimento via aquisições

Neste momento, os olhos de investidores e analistas estão voltados para a operadora de planos de saúde Hapvida (HAPV3). De maio de 2019 a julho deste ano, a empresa realizou oito aquisições, entre hospitais e operadoras.

Com um modelo de negócios verticalizado, em que os beneficiários dos planos de saúde são atendidos pelos hospitais mantidos pela própria Hapvida, parte das aquisições serviu para reforçar sua infraestrutura em regiões onde já atua.

Mas a parte que mais interessa os investidores é a expansão para outros mercados, como o Centro-Oeste, o Sul e o Sudeste. O motivo do interesse é óbvio: são as regiões mais populosas do Brasil. Em meados de julho, ao avaliar a estratégia de aquisições da Hapvida, o Banco Safra pontuou o abismo que separa a companhia desses mercados.

Segundo o banco, o Norte e Nordeste, onde a Hapvida detém 32% de participação de mercado, representa apenas 17% do mercado brasileiro de planos de saúde. Já no Sul, Sudeste e Centro-oeste, que respondem por 83% de todo o mercado, a companhia detém apenas 2,4% de participação.

No que depender da cúpula da empresa, essa diferença será cada vez menor. Em entrevista ao Money Times, seu diretor financeiro, Bruno Cals, afirma que a Hapvida está preparada para novas aquisições. No momento, há 15 alvos, entre operadoras e hospitais.

Munição para tanto, não falta. Enquanto outras empresas não sabem se sobreviverão mais um dia, arruinadas pela pandemia de coronavírus, a operadora cearense exibe uma dívida líquida negativa de R$ 2,1 bilhões, fruto de um caixa com R$ 4,2 bilhões e uma dívida total de apenas R$ 2,1 bilhões.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Money Times – Qual é o balanço que os senhores fazem deste segundo trimestre?

Bruno Cals – Do lado operacional, adotamos uma estratégia muito forte de combate à pandemia, apoiada em três pilares. O primeiro é a comunicação, com vídeos e orientações sobre como lidar com a Covid-19. O segundo foi garantir os suprimentos. Fizemos investimentos relevantes para reforçar o estoque de EPIs, equipamentos, medicação. Fretamos um avião para transportar o material necessário para abastecer todas as regiões. O terceiro pilar é a operação em si. Remanejamos procedimentos, ampliamos leitos e reforçamos a UTI em alguns lugares. Também fizemos um grande investimento em telemedicina. Já alcançamos 70 mil atendimentos remotos, apenas relacionados à Covid-19. Do total, 5% foram encaminhados para atendimento presencial. Ao todo, já investimos R$ 110 milhões para enfrentar a pandemia.

MT – A Hapvida tem um plano de saída da pandemia?

BC – Primeiro, precisamos lembrar que muitas regiões em que atuamos já voltaram à normalidade. Apenas algumas localidades, como Goiás e algumas praças de São Paulo, ainda enfrentam restrições. A pandemia sempre tem uma certa imprevisibilidade. Por isso, mantemos uma estrutura de reserva. Mas, até agora, não vimos indícios de uma segunda onda de contaminações nas regiões em que atuamos.

MT – Uma preocupação comum dos analistas, ao comentarem os resultados da Hapvida neste trimestre, é que eles se baseiam numa forte queda da sinistralidade, devido à suspensão dos procedimentos eletivos. O que se pode esperar do terceiro trimestre? A sinistralidade vai aumentar?

BC – Por orientação da ANS, os planos de saúde suspenderam os procedimentos eletivos. Isso gerou uma queda significativa da sinistralidade, que se refletiu num resultado espetacular. Mas o impacto da Covid varia muito entre as regiões. No Norte e Nordeste, a Hapvida já encaminhou 90% dos procedimentos eletivos que estavam acumulados. Então, não haverá um grande impacto nos sinistros nos próximos meses, porque os beneficiários não voltaram todos de uma vez. A situação está se normalizando aos poucos. Até o fim do ano, isso deve estar resolvido.

MT – Quantos procedimentos eletivos estavam represados pela pandemia?

BC – Apenas de cirurgias, havia entre 2 mil e 3 mil pendentes. As regiões mais complicadas são Goiás e algumas partes de São Paulo. No Norte e Nordeste, que representam a maioria dos nossos clientes, isso já está bem encaminhado.

MT – Quanto a pandemia atrapalha os planos de expansão da Hapvida?

BC – A pandemia não retardou em nada o nosso plano de expansão. Além disso, já vemos uma certa retomada da economia. O ânimo do varejo melhorou, e isso vai chegar até as indústrias, que são clientes de nossos planos coletivos.

MT – A Hapvida já declarou algumas vezes que as aquisições são estratégicas para sustentar o crescimento. A empresa está com um caixa confortável e dívida líquida negativa. A pandemia não atrapalha as compras?

BC – Continuamos avaliando aquisições muito fortemente. Neste momento, temos 15 targets, entre operadoras de planos de saúde e hospitais. Vamos continuar com essa pegada. Temos R$ 3,4 bilhões de caixa livre. Temos dívida líquida negativa, que reflete nosso posicionamento conservador de alavancagem financeira e a resiliência do nosso modelo de negócios.

MT – Qual é o perfil das candidatas à aquisição?

BC – Trabalhamos com três estratégias. A primeira é realizar M&A em praças onde já atuamos, para ampliar nossa presença local, ganhar market share onde já estamos. A segunda são aquisições mais estratégicas, em praças onde não estamos, mas queremos entrar. É o que fizemos com o Grupo São José. A terceira é reforçar nossa infraestrutura, com a aquisição de hospitais para atender aos beneficiários, já que temos um modelo verticalizado de negócios.

MT – Ao comentar possíveis mercados em que a Hapvida pode entrar, alguns analistas destacam oportunidades em regiões onde o Grupo Notre Dame Intermédica (GNDI3) não está. Isso é um fator para a Hapvida decidir uma aquisição?

BC – Em todas as regiões, temos concorrentes estruturados. Competimos com todos, e não será a presença de um ou vários deles que nos impedirá de atuar em algum lugar. É claro que, dependendo do tipo de concorrente, é mais fácil entrar, como nas localidades atendidas por cooperativas de saúde.

MT – A Hapvida conta com cerca de 18 mil investidores pessoas físicas. O que o senhor gostaria de lhes dizer neste momento?

BC – Continuamos muito confiantes. Nosso modelo de negócio é um sucesso absoluto. Continuaremos trabalhando para garantir o acesso da população a uma saúde de qualidade. Há muito espaço para crescer ainda. Somos os líderes desse mercado, e temos apenas 7,5% de market share nacional, em número de beneficiários. Veja: se este é um mercado em que o líder tem essa fatia, então tem muito espaço para crescer. Sem contar a população que ainda não tem acesso a um plano de saúde. Atualmente, apenas 24% dos brasileiros contam com um. Isso significa que outros 76% dependem do sistema público. À medida que a economia crescer e mais gente puder ter acesso a planos de saúde, nosso mercado crescerá junto.

Referência: Money Times

Autor: Márcio Juliboni