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”Estruturação do SUS foi marco imenso para o país”, diz diretor do Sírio-Libanês em Brasília

20 de setembro 2020 Paulo Araripe Jr.

Oncologista Gustavo Fernandes falou ao CB.Saúde sobre as dificuldades enfrentadas na gestão da saúde pública em um país com as desigualdades e as dimensões do Brasil.

Os problemas do Sistema Único de Saúde (SUS) ganharam atenção por conta do estado de calamidade pública instalado pela pandemia, mas não foram criados por ela. É o que ressalta o médico oncologista e diretor-geral do hospital Sírio-Libanês em Brasília, Gustavo Fernandes. “Hoje, 75% da população brasileira depende exclusivamente do SUS. E essa necessidade que a gente enxergou no SUS agora, na verdade, só foi iluminada por uma cena de doenças e de saúde coletiva que sensibilizou a todo mundo”, pontuou.

Em entrevista ao CB.Saúde — parceria do Correio com a TV Brasília — nesta quinta-feira (17/9), ele falou sobre um dos maiores gargalos do sistema: o orçamento. “Nós temos um Ministério da Saúde que tem um orçamento que não é imenso para cuidar do país inteiro, pouco mais de 100 bilhões (de reais). Naturalmente, tem os orçamentos dos estados e municípios. Mas o SUS é subfinanciado”, ponderou.

O médico lembrou que, em termos absolutos, o Brasil investe muito em saúde, mas a maioria dos recursos é colocada pelo sistema privado — que atende apenas cerca de 20% da população. “Quando a gente olha o investimento global, no Brasil, em saúde, o país investe 8,9%, 9%, do PIB (Produto Interno Bruto) em saúde. Esse é um investimento alto para um país de renda média, como o Brasil é classificado. Mas mais da metade desse investimento vem dos 20% da saúde suplementar, ou seja, do privado. Ou seja, mais da metade é investido pelo setor privado, na verdade pelo cidadão. O cidadão que arca com a despesa do setor privado. E a outra metade, ou menos da metade, vai para 80% (dos usuários do sistema de saúde). Então, é metade para 20% e metade para 80%. Daí dá para entender as dificuldades de acesso que nós temos”, detalhou.

Importância histórica

Mas Fernandes também fez questão de ressaltar a relevância da sistematização das políticas públicas na área de saúde no país. “Alguém que nasceu quarenta anos atrás, como eu, nasceu em uma época em que a gente não tinha uma assistência do Estado estruturada para a saúde. As estruturas estatais para atendimento de saúde eram esporádicas, não tinham uma lógica central. Então, a estruturação do SUS em 1988 é um marco imenso para o país”, comentou.

Para ele, é importante, agora, avançar no entendimento das diferenças regionais e também nas desigualdades existentes dentro do próprio sistema para que a qualidade do serviço oferecida seja menos díspar. “Uma das coisas que faltam é a gente entender a complexidade que isso tem dentro de um país com a dimensão do Brasil, uma dimensão classificada como continental, com a população que a gente tem e com as desigualdades que a gente carrega. Então, é um continente tanto em números de pessoas, quanto em extensão, quanto, de fato, em subgrupos de pessoas que estão dentro desse país”, colocou.

Autor: Jéssica Gotlib
Referência: Correio Braziliense