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Vacina de Oxford tem 90% de eficácia; Fiocruz já prevê vacinar 130 milhões

24 de novembro 2020

Segundo pesquisadores, o imunizante pode ser armazenado na geladeira, a temperaturas de 2°C a 8°C, o que facilita distribuição e armazenamento

Melhores resultados com os voluntários da fase 3 ocorreram quando se aplicou inicialmente a metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Para iniciar a imunização no Brasil, falta ainda uma liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)

O laboratório britânico Astrazeneca e a Universidade de Oxford anunciaram ontem que a vacina que desenvolveram contra a covid-19 alcançou eficácia de até 90%. Uma das apostas brasileiras para conter a doença, o imunizante deverá ser produzido pela Fiocruz, que já prevê 130 milhões de brasileiros vacinados em 2021. Falta ainda liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Nos testes, a vacina de Oxford foi administrada de duas formas diferentes: na primeira delas, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo de voluntários, a eficácia foi de 90%. Já no segundo grupo, que recebeu duas doses completas da vacina, a eficácia foi reduzida a 62%. Esses dois resultados permitiram obter eficácia média de 70%. Essas conclusões foram possíveis a partir dos testes de fase 3 – a última etapa dos estudos – realizados na Inglaterra e no Brasil.

“A eficácia e segurança desta vacina confirmam que será muito competente contra a covid19 e que terá um impacto imediato nesta emergência de saúde”, disse o CEO da Astrazeneca, Pascal Soriot, em um comunicado. Os últimos resultados ainda não foram submetidos a publicações científicas.

Segundo os pesquisadores, diferentemente de outros imunizantes, este pode ser armazenado na geladeira, a temperaturas de 2ºc a 8ºc, o que facilita a distribuição e o armazenamento. Outras vacinas, como a da Pfizer, alcançaram eficácia até maior, mas demandam temperatura de -70ºc – uma logística de armazenamento que o Brasil não tem. Outra vantagem do imunizante de Oxford seria o custo. A Astrazeneca pretende vender a dose por valor médio de US$ 3 a US$ 4. Outras vacinas podem custar até US$ 25.

A análise de eficácia foi possível após o registro de 131 casos de covid-19 entre os 11 mil voluntários que participaram do teste, de um modo geral. No grupo que recebeu a vacina foram confirmados 30 casos da doença. No que recebeu placebo, foram 101 infectados. Já a eficácia de 90% foi obtida em um grupo menor, de 2,7 mil voluntários.

Coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil, a pesquisadora Sue Ann Costa Clemens afirma que, após a análise interina dos dados, os cientistas produzirão um dossiê com os resultados observados para ser submetido à Anvisa. “Acredito que nas próximas duas semanas isso será submetido.” Somente depois de enviados esses dados a agência poderá decidir se concede ou não o registro ao produto. Após submetido o dossiê, a Anvisa tem até dois meses para dar a resposta. Ontem, a Anvisa afirmou que não recebeu solicitação de reunião por parte da Astrazeneca e que não tem pedido formal de registro desta ou de qualquer outra vacina para o Brasil.

Planos para 2021. Os dados de eficácia animaram a Fiocruz, que tem um acordo de transferência de tecnologia com a Astrazeneca e a universidade britânica para a produção e oferta da vacina no País. A instituição brasileira aumentou a expectativa de vacinação dos brasileiros – a previsão agora é imunizar 65 milhões no primeiro semestre de 2021 e outros 65 milhões no segundo semestre. A vacinação pode começar entre o fim de fevereiro e o início de março.

O aumento de 30% no alcance da vacina ocorre porque a estratégia que se mostrou mais eficaz é a de usar meia dose – e não uma dose inteira – na primeira etapa. “O que nos deixa mais otimistas é que esse protocolo com eficácia de 90% traz um ganho de rendimento porque a primeira dose será com quantidade menor da vacina. E isso tem impacto muito significativo porque permite que o número de pessoas que vão receber cresça 30%”, disse Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz.

Com a previsão de produzir 260 milhões de doses no ano que vem, a Fiocruz acredita que o imunizante terá papel importante no controle da pandemia no País. “Isso coloca o Brasil em posição privilegiada em relação a outros países.” A estratégia de priorização ainda está sendo definida, mas é provável que seja dada preferência à vacinação de pessoas mais vulneráveis, como idosos, e a profissionais de saúde. Não está descartado, porém, começar a vacinação em regiões do Brasil que estejam com altos números de infectados.

O protocolo da Fiocruz prevê aplicar duas doses, com intervalo de 28 dias entre elas. Até que boa parte se vacine, o vice-presidente da Fiocruz pede cautela com a doença e a manutenção de medidas de distanciamento e higiene. “A vacina virá, e muito em breve, mas ainda não chegou e não chegará de forma imediata para toda a população.”

Autor: Fabiana Cambricoli
Referência: Estado de São Paulo