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Educação financeira não pode ser deixada de lado

25 de janeiro 2021

Implementação do tema nas escolas foi interrompida pela pandemia, mas bancos, gestoras e seguradoras em conteúdo que os pais podem usar no isolamento, de vídeos e e-books a apps que mostram o valor do dinheiro

Além de suspender aulas presenciais, a pandemia atrapalhou a implementação, nas escolas públicas, da educação financeira para crianças e adolescentes – obrigatória, nos ensinos infantil e fundamental, desde o ano passado. Mas, enquanto o projeto não andar e as crianças estiverem em casa, os pais podem aproveitar o isolamento para conversar com os filhos sobre o tema, dizem especialistas

Bancos, gestoras de investimento e até seguradoras têm estimulado essa conversa por meio de jogos, leitura e até de uma espécie de mesada eletrônica, em que os jovens aprendem a controlar os gastos e fazer uma reserva financeira.

– Dar um cartão de crédito ilimitado é muito ruim para crianças e adolescentes aprenderem sobre como cuidar das finanças. Ela gasta e não sabe quanto o pai vai pagar no total, nem quanto sobrou de saldo – diz Marcos Figueiredo, cofundador do Blu, aplicativo do banco digital B2S, que visa ensinar a crianças e adolescentes o valor do dinheiro.

O foco do app é ensinar conceitos de educação financeira pela mesada. O adulto abre uma conta no Blu e deposita uma quantia. O jovem ganha um cartão eletrônico para gastar o dinheiro, mas vai sendo desafiado, em games e quiz, a cumprir tarefas, como lavar a louça, arrumar o . quarto e até iniciar reserva financeira.

Quando cumpre as metas, é premiado com medalhas. O pai tem acesso ao extrato. Mas o jovem também pode ver quanto já gastou e tem de saldo. Já são 25 mil cadastrados no aplicativo, que tem funções gratuitas. O foco são jovens a partir de 12 anos. Para ter acesso a todos os serviços, o custo mensal é de R$ 14,90, mas clientes do banco B2S têm desconto.

LEVARÁ REFLEXÃO

O clube Leiturinha, voltado para o público infantil e com 180 mil assinantes, fez uma parceria com a Genial Investimentos para criar conteúdo sobre educação financeira para crianças. Karina Batistelli, responsável pela área de produtos do Leiturinha, conta que, além de literatura e desenvolvimento pedagógico, o clube identificou espaço para criar conteúdo de finanças.

Com a Genial, foi desenvolvida uma cartilha ilustrada para os pais começarem a falar sobre o valor do dinheiro com os filhos de seis anos ou mais. Mesmo quem não é assinante do clube tem acesso a esse material pelo aplicativo.

Já para as crianças, foi criado um jogo de tabuleiro que ajuda a entender questões matemáticas (ganhou R$ 40, gastou R$ 12, sobrou quanto?) e também leva a reflexões como: Comprou um brinquedo que já tinha porque estava barato? Valeu o gasto? As assinaturas do clube variam entre R$ 29,90 e R$ 59,90 mensais.

– Tivemos participação de pedagogos, psicólogos e pessoal especializado em finanças para chegar a uma linguagem mais acessível e lúdica para as crianças nesse material de finanças – diz Karina.

A própria Genial criou, no fim do ano passado, a campanha “Meu filho investidor”. A ideia é aproximar as crianças do mercado de ações. Além de educação financeira por meio de vídeos e e-books, com uma linguagem mais acessível aos jovens, o projeto também tem como objetivo ajudar as famílias a construírem um patrimônio de longo prazo para os filhos.

A MAG Seguros desenvolveu um workshop para mães com dicas de como ajudar as crianças a entender o valor do dinheiro (para uma criança, duas notas de R$ 2 são melhores que uma de R$ 10, por exemplo) e qual seria a maneira correta de dar mesada ou qualquer tipo de pagamento como prêmio para alguma tarefa (não recompensá-lo por uma nota boa, e sim por ter lavado a louça ou arrumado a cama). Antes da pandemia, o workshop era presencial. Este ano, a seguradora estuda voltar com uma versão on-line.

– Historicamente, não temos a educação financeira presente na sociedade, mas é importante incluir esse tema desde cedo na formação. A criança que cresce aprendendo a lidar com o dinheiro tende a ser um adulto financeiramente responsável e capaz de melhores escolhas em relação ao dinheiro – diz Patrícia Campos, diretora da seguradora, que ressalta no isolamento a oportunidade de conversar com filhos sobre o tema.

‘SITUAÇÕES DO COTIDIANO’

Segundo Patrícia, uma das alternativas para abordar o assunto em casa é estabelecer metas para os filhos, que podem ser recompensadas com acréscimo na mesada. Outra iniciativa é mostrar a importância de poupar, considerando curto, médio e longo prazos, com objetivos diferentes. Isso pode ser feito de forma simples, com três cofrinhos.

Para Cláudio de Souza Miranda, professor do departamento de Contabilidade da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP), da USP, estudioso do tema nas escolas, a falta de educação financeira para crianças é um problema cultural no país. Por isso, mesmo com a obrigatoriedade nas escolas, muitos professores não estão preparados para transmitir os conceitos.

Ele observa que as aulas de educação financeira nas escolas públicas serão dadas em conjunto com o conteúdo de matemática. Mas ninguém deve ensinar as crianças a fazer contas com juros simples e compostos, ou planilhas de gastos, por exemplo.

– Para que as crianças entendam como cuidar das finanças, é preciso ter situações do cotidiano. Não adianta dar conceitos de como ser investidor ou aposentadoria. O importante é começar com temas como valor do dinheiro – diz Souza.

Alunos do FEA-RP formaram o Clube de Mercado Financeiro (CMF), que leva conceitos de educação financeira para crianças e jovens de escolas públicas e privadas, do 3- ano do fundamental ao 3ano do ensino médio. Pelo menos 10 mil crianças, de oito estados do país, já receberam esse tipo de orientação.

Letícia Nascimento, diretora do projeto para crianças e adolescentes no CMF, conta que com os pequenos são tratados conceitos como o sonho de comprar algo, os caminhos para atingir esse objetivo, como guardar dinheiro. Com os adolescentes, os temas são endividamento, uso de conta corrente ou juros.

– Falamos também de planejamento financeiro, meios de pagamento. Na pandemia, adaptamos as palestras para a internet – diz Letícia.

Autor: João Sorima Neto
Referência: O Globo