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Consolidação no setor de saúde fica sob pressão com Hapvida e NotreDame unidas

08 de março 2021

A fusão da Hapvida e da NotreDame Intermédica anunciada no início desta semana e que cria a maior empresa de saúde verticalizada do País trouxe mais holofotes para um movimento de consolidação neste setor, que acontece há pelo menos cinco anos, e a previsão de especialistas é de que deve acelerar as estratégias de reposicionamento de vários participantes desse mercado.

A Unimed, por exemplo, que também opera com um modelo verticalizado, envolvendo a oferta de plano de saúde e a prestação de serviços – com rede de hospitais próprios – fez um estudo de caso, apontando como tende a ser afetada pela fusão e quais são os potenciais alvos de aquisição para crescer e proteger a sua rede.

“No business de saúde, tem de ser grande. O pequeno sofre muito, porque é um negócio de alto risco e uma das formas de diluir o sinistro é por meio de escala”, diz o sócio do Pinheiro Neto, Carlos Lima, que participou da operação de fusão da Hapvida com a Intermédica. Com a fusão, as empresas agregam um total de 8,3 milhões de vidas, uma rede de 84 hospitais e cobertura de 20 Estados brasileiros (sendo 18 com rede própria de hospitais), criando uma gigante de R$ 110 bilhões em valor de mercado.

Lima observa que toda a indústria busca escala por meio da compra de empresas menores, citando os movimentos de consolidação do Grupo Fleury e da Dasa, no segmento de medicina diagnóstica, ou de rede de hospitais, citando a Viveo, que nasceu da consolidação de hospitais e planos. “Há um movimento tremendo ocorrendo no setor de saúde, por conta desse pilar de escala”, acrescenta Lima.

Nesse sentido, o modelo de verticalização é tido atualmente como vencedor, por trazer escala, à medida em que a eficiência de custos, gerada a partir da capacidade de gestão da prestação do serviço, permita a oferta de planos mais baratos e/ou direcionados a determinados públicos.

“A verticalização é um componente diferencial e os resultados financeiros mostram melhora no controle dos custos, maiores margens e a disponibilidade de produtos mais assertivos”, afirma o sócio-líder de Life Sciences & Health Care da Deloitte, Luis Fernando Joaquim.

Entre outros ganhos de competitividade, a fusão entre as operadoras de saúde deve possibilitar o repasse de reajustes menores a clientes. “As duas empresas possuem políticas de reajuste similares, em média 35% menor que nossos concorrentes. Teremos mais possibilidade de precificar planos com menor reajuste para nossos beneficiários”, afirmou o CEO da Hapvida, Jorge Pinheiro, em teleconferência a analistas.

Joaquim observa que, também no segmento de serviços, empresas como a Rede D’Or (hospitais) e Dasa (medicina diagnóstica) se preparam, por meio de aquisições, para evitar que as verticalizadas avancem em seus negócios. Ele acrescenta que em certo momento também essas possam chegar à verticalização, se de fato esse modelo se mostrar eficiente.

“Não está claro se elas terão plano de saúde, mas não descartaria para o futuro. Ainda é um cenário nebuloso, em que a verticalização tem de se provar como tese”, pontua. Em sua reestreia na bolsa, a Dasa pode chegar a levantar perto de R$ 7 bilhões. Com os recursos a empresa irá partir para aquisições.

O sócio da área de M&A do Pinheiro Neto, Fernando Meira, comenta ainda que a abrangência das operações da Hapvida/Intermédica no território brasileiro coloca pressão nos concorrentes para acessarem mais rapidamente os melhores ativos no País, o que também pode se mostrar o fim do jogo para parte deles. “Eventualmente, pode haver um efeito de concentração do mercado, à medida em que os que achavam que seriam consolidadores possam entender que o risco aumentou demais e atingiram um ponto em que chegaram ao fim do ciclo”, diz.

Na bolsa

Para ilustrar o momento, o sócio da Setter Investimentos, Felipe Camargo, aponta o grande número de operações de oferta de ações (IPO, em inglês) na bolsa, que têm como tese levantar recursos para aquisições. “A consolidação do setor de saúde vem em ritmo muito forte. As empresas que estão captando recursos em bolsa, por meio de ofertas de ações, vão acelerar seus processos de aquisição para se posicionarem em seus respectivos nichos”, diz Camargo.

Estão com pedido de análise de oferta de ações na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os hospitais Mater Dei e Care Caledônia (de Campinas) e a rede hospitar Kora Saúde. Ainda, entrou com registro a Viveo (holding de negócios de saúde da Cremer e da Mafra Hospitar) do fundo Pátria. Outra investida do Pátria que se espera que chegue à bolsa é a Athena Saúde, uma operadora do Nordeste e que tem feito movimentos de consolidação na região. A Dasa pode captar até R$ 7 bilhões com sua oferta de ações e as estimativas para Athena giram em torno de R$ 4 bilhões.

Meira, do Pinheiro Neto, chama a atenção para o fato de que as empresas listadas aumentam a capacidade de consolidação. “É uma corrida para ver quem tem mais escala e, quando faz um IPO, a empresa tem maior força negocial, pode pagar em dinheiro ou em ações. É o que está acontecendo na operação da Hapvida/Intermédica.”

Terreno fértil

Joaquim, da Deloitte, afirma que o espaço para consolidação é muito grande. Ele cita que existem no mercado 707 operadoras de planos de saúde ativas, sendo que 401 têm menos de 20 mil vidas. “As 10 maiores operadoras têm 41,5% do mercado de vida, que soma mais de 47 milhões”, diz. Joaquim chama a atenção também ao fato de que as mais de 47 milhões de vidas que estão em planos de saúde representam pouco mais de 22% da população brasileira. “É um mercado pulverizado e em expansão, com ampla possibilidade de maximização, e não é à toa que as empresas estão se consolidando para aumentar sua força e sinergia.”

Autor: Cynthia Decloedt e Luísa Laval
Referência: Estadão on-line