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Caixa levanta R$ 4,35 bi com IPO de braço de seguros sob resistência de funcionários e desconfiança do mercado

28 de abril 2021

A Caixa Econômica embolsou pelo menos R$ 4,35 bilhões, nesta terça-feira, no IPO (oferta inicial de ações) do seu braço de seguros e previdência. A Caixa Seguridade vai estrear na Bolsa valendo R$ 29 bilhões, após uma transação que sofreu resistência dos funcionários da Caixa e desconfiança dos fundos de investimento — não pelas mesmas razões, é claro.

O banco está abrindo mão de 15% do capital da Caixa Seguridade e vendeu as ações por R$ 9,67, segundo gestores que acompanharam a operação. O valor ficou perto do piso pretendido para o IPO, cujo intervalo indicativo ia de R$ 9,33 a R$ 12,67. Assim, a companhia vai chegar à B3 valendo R$ 9 bilhões menos do que no teto dessa faixa.

O valor arrecadado pela Caixa pode subir para R$ 5 bilhões caso os lotes adicional e suplementar de ações também consigam ser vendidos.

Resistência

A Caixa enfrentou a resistência dos investidores institucionais, cada vez mais reticentes com a governança de estatais depois de interferências recentes do Executivo nos comandos de Petrobras e Banco do Brasil.

A recepção indica que desconfiança semelhante tende a se repetir quando a Caixa tentar listar seu banco digital (Caixa Tem), a Caixa Cartões e a gestora Caixa Asset, IPOs que também estão nos planos da estatal.

— Fica mais difícil achar bons gestores que topem participar do IPO de uma estatal a essa altura do campeonato — disse um gestor, que preferiu distância dos papéis da Caixa Seguridade.

Para contornar o problema, mais de metade dos papéis foi vendida a investidores pessoas físicas, inclusive funcionários da Caixa — fatia muito acima da média de mercado. Isso também preocupou alguns gestores, que acreditam que os investidores de varejo são mais suscetíveis a desembarcar do papel em caso de turbulências de curto prazo.

— Os clientes da Caixa e outros investidores de varejo podiam ficar até com 55% da oferta, mas o lockup é de 45 dias. Depois desse período eles podem vender as ações, o que dá mais de R$ 2 bilhões em vendas potenciais — criticou outro gestor.

Pressão

Já os funcionários reclamaram da “privatização aos pedaços” da Caixa e fizeram paralização nesta terça-feira. O Sindicato dos Bancários também protocolou queixa contra a oferta junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Uma das razões seria a pressão para a venda dos papéis junto à clientela do banco.

“A Caixa comete um crime quando, primeiro, cobra de forma abusiva de seus funcionários a venda de ações da IPO sem uma preparação e determinação de quem efetivamente poderia vender os papéis. Outro crime colocado também é oferecer es ações para 100% dos seus clientes, quando apenas 10% estaria qualificado para a compra, seja pela sua condição financeira, seja por sua perspectiva de investimento de médio e longo prazo”, diz nota publicada no site do Sindicato dos Bancários.

A Caixa Seguridade será listada na Bolsa com o código “CXSE3”. O IPO foi coordenado pela própria Caixa e por Morgan Stanley, Bank of America, Credit Suisse, Itaú Unibanco e UBS-BB.

Autor: Rennan Setti
Referência: O Globo