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Pandemia impulsiona contratação de seguros liga e desliga

10 de maio 2021

Modelo personalizável ganha apelo entre consumidores; preço competitivo é relativo

A pandemia de coronavírus impulsionou o lançamento de coberturas sob demanda no mercado segurador. Segundo executivos do setor, o movimento acompanha a necessidade de ajuste ao orçamento do consumidor, e a tendência é de expansão para os próximos meses.

A modalidade, que também é conhecida como “pay per use” ou “liga e desliga”, ganha tração no segmento desde 2019, quando a Susep (Superintendência de Seguros Privados) publicou circular permitindo a comercialização de seguros com duração reduzida e por um período intermitente.

Segundo o presidente da Thinkseg, André Grigori, o cenário de pandemia serviu para trazer uma nova perspectiva sobre a oferta desse tipo de seguro.

“O seu carro não vai bater em ninguém se ele estiver parado, que é o que tem acontecido com grande parte das pessoas no cenário que estamos vivendo, de isolamento social. E o próprio mercado começou a enxergar que coberturas mais flexíveis podem ser mais adequadas ao dia a dia e trazer economia para o usuário”, afirmou.

As principais ofertas desse tipo de cobertura são para automóveis, mas a expectativa do setor é que o segmento cresça para seguros residenciais, de saúde e até de bicicletas e skates.

“Mesmo depois da pandemia, as empresas tendem a transformar o trabalho em algo híbrido, que envolva tanto o home office quanto o presencial. Isso também tende a dar fôlego para esse tipo de seguro”, disse Gregori.

Há dois formatos principais de seguros liga e desliga. No primeiro, mais comum, o cliente paga uma assinatura mensal e mais um valor variável de acordo com a utilização. No segundo, não há mensalidade; o paga pela cobertura só durante o tempo de uso do bem, calculado via aplicativo de celular.

Para Marcos Centin Dornelles, presidente da Youse Seguros, o mercado está mais aberto a inovação, inclusive por parte da Susep, e deve trazer cada vez mais novidades.

Na semana passada, a Susep colocou em consulta pública proposta de circular que flexibliza e simplifica seguros de automóveis, como a possibilidade de contratação mesmo por quem não tem carro próprio –motoristas de aplicativos, por exemplo– e de combinar e acionar coberturas conforme a conveniência do cliente.

“Trata-se de oferecer mais acesso e possibilidade de escolhas, dando mais poder para o consumidor e desenvolvendo o mercado”, afirmou, em nota, a superintendente da Susep, Solange Vieira.

O setor estima que, hoje, menos de 30% dos carros de passeio do país são segurados, seja por custo, seja por falta de opção.

“Muitas pessoas com carros mais antigos, por exemplo, não conseguem os seguros tradicionais por conta do risco que apresentam. Produtos personalizáveis e específicos podem acabar englobando esse consumidor e expandindo o produto para todas as classes da população”, afirmou Dornelles.

O liga e desliga, no entanto, tem baixa adesão. O presidente da corretora Minuto Seguros, Marcelo Blay, conta que há empresas propondo o produto, mas como é pouco divulgada, a modalidade ainda gera dúvidas.

As principais, segundo o executivo, envolvem a coleta de dados e informações por parte da seguradora –é preciso instalar um rastreador no veículo calcular a quilometragem usada e o custo do seguro.

“O produto só é competitivo em termos de preço para quem dirige muito pouco”, disse.

“As seguradoras, obviamente, oferecem a cobertura dentro das normas da LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], mas os clientes ainda não entendem isso completamente. Muitos também perguntam sobre a taxa fixa mensal, que pode variar de pessoa para pessoa”, afirmou.

Blay pontua que questões relacionadas a roubo de celulares enquanto o aplicativo estava ligado, falhas de internet ou questões simples como esquecer de desativar o produto precisam ser resolvidas.

“Os produtos sob demanda vieram para ficar e têm futuro, mas ainda precisam de muita adequação, inclusive relacionadas ao custo de tecnologia. Isso deve se resolver ao longo do tempo”, afirmou o executivo, acrescentando que ainda não é possível medir a sinistralidade dos seguros pay per use com precisão por serem muito novos no mercado.

Autor: Isabela Bolzani
Referência: Folha de São Paulo