Capitolio


Fundos de pensão administram R$ 1 tri em ativos

27 de maio 2021

Com R$ 1 trilhão em ativos sob gestão, o equivalente a cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, os fundos de pensão se tornaram agentes importantes da economia e do mercado de capitais brasileiro. São alguns dos principais investidores de longo prazo e influenciam a gestão e o financiamento de empresas, indicando conselheiros nas companhias em que possuem participação acionária importante.

Esse poder econômico atrai a cobiça de partidos políticos por indicações em cargos-chave nos fundos.

– Os fundos são grandes investidores. Eles se reforçaram durante as privatizações e participaram praticamente de todos os setores, da Vale à telefonia. Se tornaram tão importantes a ponto de serem alvo de interferências políticas – diz Sérgio Lazzarini, professor do Insper.

A função primordial dos fundos é complementar a previdência oficial de trabalhadores de estatais como Banco do Brasil (Previ), Caixa (Funcef), Petrobras (Petros), ou entidades de classe, associações e cooperativas, que não devem ter fins lucrativos na oferta de previdência. O patrimônio desses fundos é constituído das contribuições mensais de empregados e empregadores. Quase sempre, as empresas depositam o mesmo valor que os empregados no fundo, o que estimula a participação.

Os recursos são aplicados em ações, imóveis, fundos imobiliários, projetos estruturados de infraestrutura e ativos no exterior. O retorno desses investimentos se transforma no pagamento de benefícios no futuro, em prazos de até 30 anos. Chama a atenção o montante disponível para investir: só a Previ tem R$ 55 bilhões em ações da mineradora Vale.

Por cautela, os fundos aplicavam a maior parte dos recursos em títulos de renda fixa. Com a queda da Taxa

Selic, eles tiveram que fazer investimentos de maior risco para bater a meta atuarial. O professor Ricardo Teixeira, coordenador do MBA de Gestão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que os gestores precisam observar o quão agressivos podem ser para entregar um retorno que supere a inflação.

– Na pandemia, por exemplo, os gestores não sabiam como o mercado financeiro se comportaria. Acabaram sendo mais conservadores indo para a renda fixa – diz Teixeira.

Na Previ, por exemplo, os gestores diminuíram a posição em ações, no início deste ano, com o recrudescimento da pandemia. A Previ adquiriu R$ 5,7 bilhões em NTN-Bs, títulos públicos que pagam juros e a variação da inflação (IPCA), nos primeiros meses de 2021. No ano passado, já tinha comprado R$ 13 bilhões desses papéis, mostrando uma estratégia mais conservadora. O fundo comprou ações de quatro empresas que abriram capital na Bolsa em 2020.

Com a Bolsa ainda mostrando volatilidade por causa da pandemia, alguns gestores venderam participações acionárias para reduzir o impacto negativo em seu portfólio. Em janeiro deste ano, por exemplo, a Petros vendeu ações da processadora de carnes BRF. Ainda assim, tem quase 10% de participação na empresa e mantém a indicação de um representante no Conselho de Administração da companhia.

Por suas participações acionárias expressivas em algumas empresas, os fundos indicam representantes tanto no Conselho de Administração quanto Fiscal. A Previ, por exemplo, tem 85 assentos nos dois conselhos de Ambev, Bradesco, Itaú, Itaúsa, BR Malls, B3, Coelba, Gerdau, Lojas Renner, entre outras.

Em 2020, a Funcef fez até concurso para selecionar oito conselheiros e oito suplentes para companhias em que tem participação relevante, entre elas Invepar, Norte Energia, Serra Azul Water Park e Statkraft Energias Renováveis. A Petros tem representantes no Conselho de Administração e Fiscal de empresas como Invepar, Marcopolo e Norte Energia.

Lazzarini, do Insper, lembra que os principais fundos de estatais foram alvo de investigação na Lava-Jato, que revelou investimentos feitos com viés político em algumas empresas, como a Sete Brasil.

Autor: João Sorima Neto
Referência: O Globo