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‘É preciso responsabilizar quem responde pela gestão’

07 de outubro 2021

*Renato Casarotti. presidente da associação BRASILEIRA DE PLANOS DE SAÚDE (ABRAMGE)

O reflexo do caso Prevent Sênior na confiança dos consumidores em seus planos de saúde e o receio que o modelo verticalizado adotado pela operadora, em que há uma rede própria de hospitais, uma tendência atual, seja demonizado levaram o presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Renato Casarotti, a falar pela primeira vez do tema.

Casarotti chamou atenção para o “risco de, ao atribuir essa crise ao modelo, exonerar a responsabilidade das pessoas”. E destacou que protocolos devem ser estabelecidos com propósito certo e o devido debate técnico, e que qualquer inadequação deveria ser apontada ao Conselho Federal de Medicina (CFM), que tem atribuição de verificar se há embasamento científico e adequação técnica.

O senhor já percebe algum efeito dessa crise da Prevent Sênior na imagem das operadoras de plano de saúde?

É inegável que tem um efeito. A gente tem esse hábito de tirar o todo pela parte.

O caso da Prevent acabou trazendo uma discussão se essa intromissão no protocolo médico não seria uma consequência do modelo de verticalização, em que a operadora é a dona também do hospital.

Não se pode cair na armadilha de acreditar que o modelo levou a isso. Nunca caí no discurso fácil de que o modelo verticalizado precariza a assistência e nem que o de rede credenciada sempre leva ao desperdício. O risco, ao atribuir essa crise ao modelo, é exonerar a responsabilidade das pessoas. É preciso responsabilizar adequadamente quem responde pelas ações de gestão.

O senhor acha que isso pode levar a mudança na regulação sobre hospitais ou especificamente para planos de saúde que têm rede própria?

Os instrumentos para isso já existem e não só para quem tem rede própria, mas também credenciada. A ANS deve verificar se há negligência no atendimento, se as coberturas previstas estão sendo ofertados, os prazos estão sendo cumpridos. Não sou a favor de uma regulação específica sobre hospitais próprios. A questão do protocolo, o órgão responsável por isso é o Conselho Federal Medicina.

Pela lei, é o CFM que pode dizer se um protocolo médico tem embasamento científico. Ser engenheiro de obra pronta é fácil, mas a ANS poderia ter pedido o parecer técnico do CFM nesse sentido, se ele sustentava ou não o protocolo adotado pela Prevent Sênior. Se o parecer fosse contrário, poderia intervir, como anunciou que fará agora.

A atuação da ANS na apuração de condutas inadequadas de operadoras nesse caso da Covid será importante para credibilidade do setor?

Sim, de alguma forma pode expurgar os problemas e manter sólido o sistema. Sou presidente de uma associação de medicina de grupo que usa em larga escala o modelo de verticalização. E esse modelo faz sentido, está no início da lógica do sistema, até no SUS. Os protocolos existem e devem ser formulados com amplo debate técnico, não se pode é ter o propósito errado.

Como assim?

Um protocolo não pode ter o fim de reduzir custo em si.

E preciso ter o melhor protocolo para situação de assistência e o custo você vai discutir na melhor negociação para a compra de medicamento, na gestão, a parte central do cuidado precisa estar blindada tecnicamente. O problema não é ter protocolo, é o que motivou para que adotasse aquela escolha de assistência ao usuário.

Autor: Luciana Casemiro
Referência: O Globo