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“‘É completamente fora de propósito negar a vacina”

22 de outubro 2021

Entrevista

Jorge Moll Filho/ Cardiologista

Fundador da Rede D’Or faz um balanço dos impactos de um ano e meio da pandemia na saúde e revela os próximos passos do maior grupo de hospitais privados do país

Fundador do maior grupo de hospitais privados do país, a Rede D’Or, o cardiologista Jorge Moll Filho faz um balanço dos impactos de um ano e meio da pandemia nos médicos, nas instituições de saúde do grupo e nele próprio. Defende veemente o uso do passaporte de vacinas e afirma que a obrigatoriedade no uso de máscaras deverá ser afrouxada muito em breve. Aos 75 anos de idade, diz que tem “um longo caminho pela frente”, ao se referir aos novos centros de saúde em construção em São Paulo.

Quase dois anos depois dos primeiros casos no Brasil, como o senhor vê o impacto da pandemia nos médicos?

Mudou muita coisa. Alguns se recolheram por medo. Muitos enfrentaram o desconhecido heroicamente. Lembro de um rapaz de 28 anos, recém-formado. Ele foi um dos primeiros a se oferecer para participar dos hospitais de campanha. Trabalhou 24 horas por dia com uma dedicação incrível. Morreu da infecção. Não tem como não impactar uma história dessas. O que vimos ao longo desse tempo foi a maior mexida que poderíamos sentir. Me incluo porque sou médico também. Mas posso dizer que saímos mais fortes e melhores. Aprendemos que temos de ser humildes para mudar de opinião. Não faltou leito nos meus hospitais, mas nos mexemos bastante para isso não acontecer. Chegamos a interromper a construção do Hospital Gloria, no Rio, para usar o material em outros lugares. Em outro momento, São Paulo estava em uma fase melhor, enquanto o Rio piorava. Trouxemos gente e equipamentos de uma cidade para outra para enfrentar o problema.

A prefeitura do Rio anunciou que espera começar a dispensar em breve o uso de máscaras. Qual a sua opinião sobre essa medida?

A máscara é um hábito que ficará por muito tempo. Mas o custo-benefício do uso já não é tão grande. Temos em muitos lugares um grande número de pessoas vacinadas. Essa pandemia vai se tornar uma endemia. Claro que os mais idosos ou pessoas com comorbidades devem ter ainda mais cuidado. E só observar o que está acontecendo em outros países. Cheguei há poucos dias de uma viagem à França e Itália, as pessoas não estão usando máscaras nas ruas.

O senhor citou dois países que usam o passaporte da vacina. O senhor aprova o recurso?

Sou totalmente a favor. Ele é essencial para a sua proteção e dos outros. Simplesmente pelo fato de que o vacinado tem uma probabilidade bem pequena de se infectar. E se isso ocorrer, a doença será menos grave e contaminante. É completamente fora de propósito negar a vacina. Quem não se imunizou e se vangloria disso tem de saber que está bem porque está sendo protegido pelos que receberam as doses. Basta ver o que a vacina fez com rede D’Or. Chegamos a ter 3 mil pessoas internadas ao mesmo tempo, hoje não chegam a 200 e com quadros muito menos graves.

O senhor se infectou?

Não. Mas criei um método que acredito ser bastante responsável por isso. Pingo gotas de enxaguante bucal no nariz quando passo por uma situação de risco, como reuniões em ambientes fechados. E uma questão de lógica da patogenia. O vírus da Covid-19 inicialmente se deposita no cavum, área de comunicação do nariz com a garganta. Eles começam a se reproduzir ali e depois progressivamente vão para o pulmão. Tem um tipo de enxaguante bucal com peroxido de hidrogênio que tem ação contra o vírus. Arde pra burro, incomoda, mas tenho a convicção que mata os bichinhos antes de eles se reproduzirem.

Como o senhor vê a nova geração de médicos?

A cabeça dessa geração é diferente. Eles não sacrificam o conforto pessoal, a forma de viver. Mas são muito capazes. O aprendizado é muito mais rápido. Antigamente a gente tinha que tirar xerox para compartilhar conhecimento. Há menos profissionais vocacionados entre os mais novos também. Eles são mais ligados à tecnologia. Meu pai era um médico de vocação. Eu já fui um pouco menos. Mas acredito tanto na nova geração que estou criando uma faculdade de medicina, ligada ao Hospital Gloria. O Brasil é carente de boas faculdades. Elas vêm piorando, até as públicas. Vou dar orgulho ao Rio.

O Instituto D’0r recebeu um aporte milionário para produção científica, uma realidade hoje bem diferente de muitas entidades de pesquisa no Brasil. 0 senhor acredita em retorno financeiro da ciência?

O Instituto D’Or dá prejuízo. Mas a rede é grande suficiente para sustentá-lo. A questão não é financeira. Não adianta ter excelentes médicos e hospitais sem produzir pesquisa científica. Ela é a base para a inovação, para a formação e melhora dos profissionais. Tenho muito orgulho em dizer que entre as intuições particulares o nosso instituto foi o que mais produziu artigos em revista de impacto na pandemia.

O senhor está criando um centro de transplantes e deverá chamar profissionais que trabalham fora do país. Por que tomou essa decisão?

Procurei os mais experientes. Isso é importante para formar outras pessoas e fundamental para o sucesso nos procedimentos. Os americanos ou os que praticam a medicina lá são extremamente eficientes na especialidade da especialidade. Vi isso de perto. Há um tempo, uma artrose ferrou meu ombro direito e precisei trocar todas as articulações da região. Tenho amigos muito competentes em cirurgia de ombro. Mas quando perguntava quantas operações desse tipo haviam feito, me diziam duas por ano. Operei no Hospital for Special Surgery, especializado em cirurgias ortopédicas, com quem faz 40 procedimentos por mês.

A abertura do Hospital Vila Nova Star em São Paulo em 2019 mexeu com os hospitais de ponta do país. Como o senhor avalia esse impacto?

Mexi e vou mexer ainda mais. Sob o ponto de vista econômico, São Paulo se tornou a praça mais importante da Rede D’Or e temos bastante caminho pela frente. Só para citar exemplos de investimentos da capital, estou construindo uma nova maternidade e uma nova torre do Vila Nova, além do centro de transplantes. Mas essa concorrência forte em São Paulo é boa. O paciente e os próprios hospitais só têm a ganhar com isso.

Autor: Adriana Dias Lopes
Referência: O Globo