Capitolio


É inaceitável que o governo ainda hesite em proibir Kit Covid no SUS

26 de outubro 2021

Em votação de parecer técnico, secretarias do Ministério da Saúde defenderam drogas ineficazes.

É inacreditável que, com um ano e oito meses de pandemia, mais de 605 mil mortos e uma CPI prestes a indiciar o presidente Jair Bolsonaro e outros 67 investigados por dezenas de crimes, entre os quais crimes contra a humanidade, o governo ainda insista na defesa do famigerado tratamento precoce com um certo Kit Covid, pacote de medicamentos como cloroquina, ivermectina e azitromicina, sem eficácia científica comprovada contra a Covid-19.

Foi vergonhosa a votação, na última quinta-feira, do parecer da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) condenando o uso do Kit Covid no SUS. A proposta, que fora retirada de pauta na semana anterior, recebeu seis votos a favor e seis contra. Não é apenas o empate esdrúxulo que chama a atenção, mas a forma como se chegou a ele, num tema que não deveria suscitar polêmica nenhuma. Simplesmente porque se tratava da análise de um órgão técnico.

O Ministério da Saúde, que deveria prezar a ciência, votou em massa a favor do curandeirismo à base de cloroquina. Das sete secretarias da pasta que integram a comissão, cinco defenderam o kit. O Conselho Federal de Medicina (CFM), que ao longo da pandemia fez picadinho da ciência, também rejeitou o parecer. Os conselhos de secretários estaduais e municipais de Saúde (Conass e Conasems), a Agência Nacional de Saúde (ANS) e o Conselho Nacional de Saúde (CNS) endossaram a condenação ao tratamento precoce. A Anvisa, que poderia desempatar, não votou.

Está comprovado por pilhas de estudos que drogas como cloroquina e hidroxicloroquina não surtem efeito contra a Covid-19 e podem causar problemas graves, como arritmias cardíacas. Se, no início da pandemia, poderia haver dúvidas sobre a eficácia desses medicamentos, elas estavam dirimidas já em maio do ano passado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que eles não surtem efeito contra o novo coronavírus e recomenda fortemente que não sejam usados.

A posição do presidente Jair Bolsonaro em defesa do Kit Covid é conhecida. Em maio, chamou de canalha quem não aceita o tratamento precoce. Já foi fotografado mostrando caixas de cloroquina às emas do Palácio da Alvorada, fez inúmeras transmissões ao vivo em que propagandeia drogas ineficazes e, na Assembleia Geral da ONU, repetiu a ladainha, reforçando a imagem do país como pária mundial. Do Ministério da Saúde, comandado pelo cardiologista Marcelo Queiroga, esperava-se conduta menos negacionista. Até porque, em nota técnica enviada à CPI da Covid, o próprio ministério reprovara os medicamentos do kit.

O parecer da Conitec foi aberto para consulta pública e será novamente apreciado pela comissão. Que o roteiro agora seja diferente. É ridículo que a esta altura ainda se discuta se o SUS deve recomendar medicamentos ineficazes e potencialmente perigosos a pacientes com Covid-19. Não há símbolo mais eloquente do atraso que marca a atual gestão da saúde pública no Brasil.

Referência: O Globo