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Receita médica digital avança, mas esbarra em regulação

04 de janeiro 2022

A necessidade de compra de remédios controlados durante a pandemia de covid-19 forçou a digitalização do setor de saúde em ritmo acelerado, abrindo espaço para as startups. Na esteira das teleconsultas, a prescrição digital ganhou força. Uma das principais startups desse segmento é a Memed, que registrou salto de 80% na média de emissão de receitas digitais em 2021, saindo de 1,5 milhão para 2,7 milhões ao mês. Só em 2021, o negócio recebeu aportes de R$ 400 milhões para expandir sua operação.

Apesar do crescimento, o setor ainda enfrenta dificuldades tecnológicas e de regulação.

No primeiro grupo está a fragmentação dos sistemas tecnológicos de hospitais e consultórios, que nem sempre são compatíveis entre si. A exemplo do que ocorre na telemedicina, as receitas também ainda enfrentam a falta de um ambiente regulatório restritivo.

Mesmo assim, diretor de medicina diagnóstica e ambulatorial no Albert Einstein, Eliézer Silva, explica que o hospital usa receitas digitais há cinco anos. As prescrições são para os medicamentos já permitidos no formato digital, como para remédios que não precisam necessariamente de receita (mas têm orientação de uso) e antibióticos. Comprimidos controlados, como antidepressivos, ansiolíticos e analgésicos fortes, ainda carecem de regulação e precisam de receita em papel para auditoria de farmácias. “Com a digitalização do sistema de saúde, isso vai acabar sendo resolvido em algum momento”, afirma Silva, do Einstein.

A aposta de Joel Rennó Júnior, CEO da Memed, é de que se trata de uma tendência irreversível â e positiva para o paciente. “Com a eliminação do papel, podemos resolver problemas de auditoria de receitas e acabar com erros de interpretação de prescrições de medicamentos”, afirma.

A Memed gerou receitas para um total de 28 milhões de pessoas em 2021. Hoje, possui 150 mil médicos e 40 mil farmácias cadastrados na sua plataforma digital. Entre os clientes estão gigantes do setor de saúde como Unimed, Amil, Prevent Senior, Sulamérica, Beneficência Portuguesa e Hospital Oswaldo Cruz.

Disputa. E o mercado já é alvo de briga. A concorrente Nexodata também chamou a atenção de investidores e captou R$ 40 milhões. Os empresários Pedro Dias e Lucas Lacerda criaram a startup em 2017 e também fundaram a empresa de telemedicina Vitta, comprada pela Stone.

Com investidores como Jorge Paulo Lemann, Guilherme Benchimol, Mercado Livre e o Hospital Albert Einstein, a Nexodata tem uma tecnologia que permite o envio de receitas digitais aos pacientes. “A receita digital de medicamentos gera muito valor para todos. Não tem mais a letra ilegível do médico ou a perda da receita. É uma receita mais segura do que o papel”, afirma Dias.

O grupo Notredame Intermédica, Hospital Albert Einstein e Rede D’Or utilizam a tecnologia da startup, que também tem 25 mil farmácias credenciadas em sua plataforma.

Para Guilherme Hummel, especialista em saúde digital e coordenador científico da Hospitalar Hub, que organiza o evento anual Feira Hospitalar, o maior valor das startups que atuam na emissão de receitas digitais está nos dados dos pacientes, que podem viabilizar novos negócios e uma visão panorâmica da situação de saúde em várias regiões do País.

Autor: Lucas Agrela
Referência: Estado de São Paulo