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Hospitais de SP preveem aumento de crianças doentes com chegada do outono

01 de abril 2022

Médicos afirmam que situação é esperada para o período e que casos em geral não são ligados à Covid

“Nosso pronto-socorro está prestando os atendimentos por meio de um plano de contingências, que prioriza crianças com condições clínicas mais graves”, diz a mensagem que aparece desde segunda-feira (28) na tela inicial do site do Hospital Infantil Sabará, instituição privada que funciona na região central de São Paulo.

De acordo com dados do hospital, houve um aumento de casos de síndrome respiratória considerados urgentes em março, com 1.267 pacientes, se comparados com o mês de fevereiro (1.025).

O número, porém, está abaixo do registrado em janeiro (1.658), quando houve uma explosão de casos de Covid-19 no público infantil, impulsionada pela variante ômicron.

O levantamento, com números até segunda-feira (28), indica uma quantidade de pacientes urgentes igual à de março de 2019, período pré-pandêmico.

O aumento da procura por pronto-atendimento e internação de crianças, na comparação entre as semanas mais recentes, tem sido notada também em outros hospitais privados da capital paulista.

O Santa Catarina Paulista, na região central, e o Sabará preparam para o outono, época do ano em que tradicionalmente crescem os atendimentos aos pequenos, um plano de contingência que consiste no aumento de leitos.

O primeiro afirma que criará uma UTI com dez leitos para fazer o atendimento a crianças com infecções virais. O segundo implantou, neste ano, 19 novos leitos em uma unidade externa do hospital, para receber pacientes de menor complexidade.

Assim como o Sabará, o Hospital Santa Catarina Paulista afirma que, comparado com fevereiro, o mês de março registrou um aumento de demanda para o público infantil. Na instituição, o crescimento foi de 61% nos atendimentos pediátricos com síndrome respiratória.

As internações, no entanto, se mantêm estáveis. No mês passado, houve 101, sendo 19 em UTI. Já neste, foram 118 internações, sendo 20 em UTI, até esta quarta-feira (30).

Já o Hospital da Criança, da Rede D’Or, registrou, entre janeiro e março, uma alta de 125% nos atendimentos de pronto-socorro. Em sua maioria, são casos de síndrome respiratória, não Covid, decorrentes da chegada do outono.

A instituição diz que se trata “de uma sazonalidade típica da pediatria para a qual o hospital está sempre preparado”.

Marco Aurélio Safadi, infectologista, pediatra e presidente do departamento de imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo, afirma que no início do outono tradicionalmente há um aumento de pacientes pediátricos.

“Março e junho é quando, historicamente, temos um maior número de consultas e internações de forma consistente, pois são os meses de outono e inverno, que é quando aparecem vírus respiratórios e gastrointestinais”, afirma Safadi, que atua no Hospital Infantil Sabará e na Santa Casa de Misericórdia.

Ele afirma que o perfil de pacientes em março é diferente daqueles que procuraram os hospitais em janeiro, quando muitas crianças foram internadas pela Covid-19.

“Ainda é cedo para dizermos qual o principal causador deste ano, mas não é Covid”, explica ele, que diz que também não houve um aumento significativo nos casos de influenza ou bronquiolite. “São diferentes vírus sem um protagonista no momento.”

Por isso, Safadi atribui a alta na procura ao histórico cenário de internações no início de outono. Além disso, diz ele, aconteceu o retorno às aulas presenciais e, em grande parte, à normalidade.

“Vivemos um cenário em que as pessoas se esquecem do dia a dia presencial, e esse aumento de procura de hospital é o que esperamos que aconteça. A flexibilização traz esse cenário.”

Renato Kfouri, médico especialista em infectologia pediátrica, também destaca que o aumento de casos de Srag (Síndrome Respiratória Aguda) é normal com a chegada do outono e as variações de temperatura.

Segundo ele, os casos que têm chegado aos hospitais, por enquanto, são em geral de bronquiolite, causada pelo vírus sincicial respiratório. “É um período normal de aumento”, reforça.

Segundo ele, há a expectativa de que, com a chegada do inverno, haja uma circulação maior de outros vírus que provocam doenças respiratórias, como a influenza.

“A gente vem de dois anos em que esses vírus tiveram uma circulação menor por conta do isolamento. Além disso, as crianças pequenas ficaram sem ir para a escola, que é onde normalmente são infectadas e criam imunidade.”

Ele lembra ainda que o país teve uma circulação atípica de influenza no fim de dezembro e janeiro, o que pode mudar o comportamento de transmissão do vírus no inverno. “O que podemos fazer é o que já sabemos ser eficaz, avançar com a vacinação tanto de gripe como Covid.”

Pediatra do hospital Santa Catarina, Werther Brunow de Carvalho também relembra a situação de dezembro vivida no país.

“No fim do ano, tivemos uma alta nos casos de influenza, mas agora é diferente. Agora, é um comportamento que a gente espera dessa sazonalidade”, diz.

Para evitar adoecimento nesse período, ele destaca, é preciso que pais e responsáveis fiquem atentos à prevenção, como constante lavagem das mãos, uso de álcool gel e evitar contato das crianças com pessoas que apresentem sintomas gripais.

Além disso, aconselha que as pessoas frequentem ambientes ventilados e que adultos não fumem em ambientes com crianças, pois o cigarro pode irritar as vias aéreas.

Apesar da queda nos números de Covid, especialistas dizem que a infecção não sai do radar dos hospitais.

“Casos de Covid em pediatria caíram bastante este ano. Isso nos deixa um pouco mais tranquilos, mas não afasta a possibilidade de diagnóstico de Sars-Cov-2”, diz Carvalho.

Gerente médico e infectologista do hospital Sabará, Francisco Ivanildo analisa que a equipe médica do hospital está atenta para verificar precocemente caso haja um novo pico de casos de Covid-19.

“Principalmente por conta da liberalização de máscaras e entrada de um período mais frio e mais seco”, resume ele, que calcula que a vacinação de crianças de 5 a 11 anos ainda está abaixo do desejado.

“Apesar de o município de São Paulo estar acima da média nacional, ainda não conseguimos a mesma adesão que tivemos para os adolescentes e outras faixas de adultos.”

Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo afirmou não observar alta por enquanto nos casos na rede municipal.

“Em 2022, a partir da semana [epidemiológica] 7 (de 13 a 19 de fevereiro) é possível observar queda nos números de internações de 0 a 18 anos por problemas respiratórios, com quatro casos a mais na semana 11 (13/3 a 19/3), se comparado a semana anterior, mas caindo novamente na semana 12 (20/3 a 26/3).”

Autor: Isabella Menon e Isabela Palhares
Referência: Folha de São Paulo