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Com ameaça do clima, agricultores da região apostam em seguro rural

15 de agosto 2023 Paulo Araripe Jr.

Contratar um seguro rural pode permitir segurança para os produtores durante a produção agrícola; clima e El Niño têm preocupado os agricultores que mantêm produção a céu aberto

Uma das maiores preocupações do agricultor é com relação ao clima. Tanto para o melhor desenvolvimento das lavouras como para os danos que as intempéries climáticas podem causar. Como os cultivos são, em grande maioria, a céu aberto, o produtor tem que contar com a ajuda da natureza para que tudo corra bem com as plantações. Entre os diferentes manejos e tecnologias para o campo, o seguro rural é mais um item importante para diminuir possíveis prejuízos às propriedades.

Neste ano, a chegada do fenômeno climático El Niño, com previsão para este segundo semestre, os produtores estão mais preocupados, já que as instabilidades climáticas causadas pelo El Niño podem afetar as safras agrícolas. De acordo com os consultores de seguro rural, a preocupação com as instabilidades climáticas têm aumentado a procura pelas apólices do seguro rural, na região Noroeste paulista.

Segundo Heitor de Melo Moreira, consultor de seguros para o agronegócio, o El Niño preocupa o produtor e pode impactar, por exemplo, a produtividade dos grãos como a soja. Ele explica que o produtor contrata, normalmente, os serviços de apólice de seguros a partir do mês de agosto, no setor de grãos.

“O seguro garante um percentual por saca de soja caso o produtor não consiga colher por conta de falta de chuva fora da normalidade, impactando na produtividade da lavoura”, diz Heitor. O consultor também comenta que ainda falta ao produtor mais conscientização para proteger a lavoura. “É sempre importante o produtor deixar a lavoura todo o ano segurada, para não ter nenhum impacto financeiro no negócio dele”.

Subsídio do governo

Para incentivar o produtor rural a manter os plantios de alimentos, os governos federal e estadual (do estado de São Paulo) oferecem subsídios ao produtor que tem a intenção de contratar um seguro rural. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), é um desses incentivos ao produtor para ter a oportunidade de segurar sua produção com custo reduzido, por meio de auxílio financeiro do governo federal.

De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em 2022, o programa de subvenção aplicou R$ 1,1 bilhão para atender mais de 98 mil produtores, quando foram contratadas 125 mil apólices (área estimada de 7,2 milhões de hectares), e com valor segurado total de R$ 43 bilhões.

Segundo o consultor de seguro rural, Nelson José Moreira, é importante o produtor ficar atento aos subsídios lançados a cada ano, pelos governos estadual e federal, já que os recursos se esgotam rapidamente. “Procurar um corretor habilitado para esclarecer sobre os subsídios para o agricultor também é necessário. Damos todas as informações e orientações técnicas sobre as safras de cada produtor e como contratar o seguro, com o subsídio que contribui em uma parte para o produtor, caso ele necessite”, afirma.

Na região Noroeste, Nelson diz ainda que os produtores de seringueiras e os de grãos são os mais interessados na contratação de seguro rural. “Nos últimos anos, com tantas mudanças climáticas, e principalmente com a seca que se agravou na nossa região, a procura pelo seguro rural aumentou em 50%”, ressalta.

Especialista avalia El Niño

O fenômeno El Niño ocorre a partir do aquecimento das águas do Oceano Pacífico e tem duração média de 18 meses. Já o La Niña resulta no resfriamento das águas do Pacífico, o que gerou frio acentuado nos estados do Sul e Sudeste, com maior incidência de geadas no Rio Grande do Sul, e aumento de chuvas e ventos no Nordeste ao longo de 2021 e 2022.

A professora-doutora de Agrometeorologia e Climatologia Anice Garcia explica que foi registrado o encerramento do fenômeno La Niña no mês de março deste ano, após uma duração de três anos. “As condições de El Niño já atuando e as projeções feitas a partir de modelos numéricos de previsão climática apontam para a persistência desse padrão de aquecimento, durante os meses de agosto, setembro e outubro de 2023”, afirma.

Anice aponta ainda que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) avaliou que o El Niño poderá se manter até o final do ano, sendo que o fenômeno deve apresentar intensidade entre moderada a forte.

“O fenômeno El Niño dessa intensidade indica a probabilidade de chuvas para a próxima safra, diferentes das que ocorreram durantes os três anos do fenômeno La Niña, sendo que para as regiões do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil, são previstas chuvas abaixo da média histórica. Essa diminuição de chuvas pode impactar os cultivos dessas regiões”, completa a especialista. (CC)

Quem sabe bem o que é perder um plantio inteiro, após uma forte seca ou chuva que causa danos às plantas, é o produtor José Luiz da Costa, de Orindiúva. “A gente, na agricultura, corre um risco muito grande. É como se jogássemos o dinheiro na terra, e tudo é muito caro para manter as lavouras”, diz o produtor. E para não correr sérios riscos, entre eles, os climáticos, José Luiz não deixa de contratar o seguro para o plantio da soja.

O produtor também sempre aproveita o recurso de subsídio do governo federal, que para a soja representa o financiamento de 20%, para a cobertura de perdas em situações de prejuízos com o clima. José Luiz também está apreensivo com a chegada do El Niño, que deverá coincidir com a fase de plantio da soja (prevista para o mês de outubro).

“Como o El Niño está mais relacionado com as pancadas de chuva, sempre há a preocupação. No caso de uma chuva muito frequente, por exemplo, de volume alto de chuva em poucas horas, há o risco de assoreamento da lavoura e perdemos o plantio”, explica o produtor.

Apesar do investimento alto na contratação do seguro rural, para Reginaldo Massuia, os subsídios do governo ajudam bastante os produtores adquirirem o seguro. Ele conta que faz seguros para algumas áreas de plantio da soja. “Neste ano até ficou um pouco mais barato para fazer o seguro, já que o preço da soja caiu bastante. Na safra passada a gente fazia o seguro com o preço da saca em R$ 175, e neste ano o preço está cotado em R$ 130”.

Autor: Cristina Cais
Referência: Diário da Região – SP