Capitolio


UHG, dono da Amil, põe toda operação do Brasil à venda

06 de setembro 2023 Paulo Araripe Jr.

Analistas avaliam que o momento atual é desfavorável para essa transação

O United Health Group, dono da Amil e da Américas Serviços Médicos, colocou à venda toda a sua operação no Brasil, conforme antecipou o colunista do GLOBO Lauro Jardim. Não é a primeira vez que a gigante americana tenta se desfazer do negócio no país.

Depois de uma malsucedida tentativa de negociar a deficitária carteira de planos individuais, no ano passado, que acabou suspensa pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o grupo agora quer fazer uma operação em bloco, sem desmembramento de partes da operação. A negociação, dessa vez, pode ser ainda mais complicada, diante da atual conjuntura do setor.

A Amil como um todo foi avaliada pelo Bank of America (BofA) em entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões, de acordo com o jornal Valor. A Amil é hoje a terceira maior operadora do país, com 3,1 milhões de usuários em planos médicos e 2,3 milhões em odontológicos, 19 hospitais e 52 unidades de atendimento, como ambulatórios e centros de diagnóstico. Já a Américas, também no grupo, tem 28 centros médicos e clínicas, sete centros de excelência e 12 hospitais.

VENDA ‘SEM PRESSA’

Segundo fontes, o UHG ainda não tem comprador nem teria pressa para fechar a venda. Trata-se de uma mudança de estratégia, não da necessidade de levantar recursos. Agigante americana teve US$ 92 bilhões em receita no segundo trimestre.

Desde janeiro de 2022, comenta-se no mercado que o BTG teria sido contratado pelo UHG para capitanear a saída do grupo do Brasil. Mudanças na liderança da companhia e novas iniciativas, como o retorno da venda de planos individuais, porém, pareciam ter colocado esse movimento de lado, dizem analistas.

Para especialistas no mercado de saúde, o cenário atual para uma transação desse porte é menos favorável do que no passado. Após uma onda acelerada de fusões e aquisições no setor, as empresas estariam no momento de consolidar seus ativos, ainda endividadas, com pouco apetite para um negócio do tamanho do que o UHG tem no país.

– Os juros pesam sobre o resultado das empresas do setor, endividadas pelas recentes aquisições. Na microeconomia, o plano de saúde depende da geração de empregos formais, o que não cresceu. E ainda há o aumento dos sinistros (uso dos planos pelos usuários), que influenciou negativamente o resultado do setor e da Amil. Se estava difícil vender a Amil, agora não está mais fácil – diz Harold Takahashi, sócio da Fortezza Partners, assessoria de investimentos especializada em fusões e aquisições.

Ele ressalta que potenciais compradores, como Bradesco, Dasa, Rede D’Or e Hapvida, enfrentariam obstáculos:

– O primeiro é o Cade (órgão regulador da concorrência), por conta da concentração de mercado, e seria preciso vender parte da carteira de planos ou de hospitais. O segundo é a gestão desse monstro, a terceira maior operadora do país. E todos estão com altos níveis de endividamento.

Os resultados financeiros da empresa também pesam contra. A Amil registrou, de janeiro a junho, prejuízo de R$ 866 milhões, depois de ter fechado 2022 com perdas de R$ 1,6 bilhão.

Um grande investidor do mercado lembra que “não se muda a rota de um transatlântico com rapidez.” Ele avalia que a grande questão é quanto tempo e dinheiro seriam necessários para fazer mudar os rumos da Amil.

Rita Ragazzi, sócia-diretora líder do segmento de Saúde e Ciências da Vida da KPMG no Brasil, também não vê negociações desse porte por ora:

– Acho que a negociação pode acontecer por um caminho mais segmentado. Não é o melhor momento.

Procurado o UHG Brasil disse não que comenta rumores de mercado. BTG, Bradesco, Rede D’Or, Dasae Hapvida também não se pronunciaram.

Autor: Luciana Casemiro
Referência: O Globo