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O Sistema Único de Saúde funciona

03 de agosto 2020 | Antonio Penteado Mendonça

Se a pandemia trouxe em seu bojo, além das dezenas de milhares de mortes que entristecem as pessoas de bem e da falta de comprometimento de altas autoridades com os destinos da população, trouxe também um lado positivo, representado pela solidariedade que se espalhou pela nação, unindo pessoas físicas e empresas, ricas e pobres, no esforço para auxiliar a combater o coronavírus.

Com a pandemia e as primeiras notícias sobre sua gravidade, o Brasil viu se formar uma corrente de pessoas e empresas querendo doar e participar da luta contra o vírus que entrava no país e começava sua marcha destruidora.

A internet foi peça fundamental para este movimento.

Rapidamente o tema foi profissionalizado e organizações especializadas entraram em cena, passando a captar e direcionar os recursos. Ao mesmo tempo, empresas de todos os tamanhos passaram a se interessar em doar e assim começaram os contatos com os hospitais e com as Secretarias da Saúde para o encaminhamento das doações.

Até agora, somando-se tudo que foi feito, o valor deve passar a casa de um R$ 1,5 bilhão, quantia absolutamente inédita na história das doações para o setor de saúde no País. E elas são bem vindas e necessárias porque o quadro é dramático e deve se agravar mais ainda, com a pandemia marchando para o interior, onde as pessoas, até agora, tratam o assunto como férias fora de hora, apesar de milhares de brasileiros já terem morrido.

Todos os dias, mais de mil perdem a vida, vitimados pela covid-19, que, implacável, converte em óbitos a maioria dos casos internados em UTI. Segundo estatísticas confiáveis, mais de 65% dos pacientes que entram nas UTIs falecem num processo rápido, enquanto a recuperação leva no mínimo duas semanas, o que restringe a capacidade de atendimento da rede pública que não consegue girar os leitos de UTI na mesma rapidez do avanço da covid-19.

Essas mortes não são apenas números para alimentar as estatísticas, ao contrário, são rostos de pessoas que deixam esta vida antes da hora, levadas por um vírus que não tem cura, mas que pode ser combatido e ter seus efeitos minimizados por ações preventivas que o Brasil começou a adotar, mas que foram desmoralizadas pelo desserviço prestado pelo Governo Federal.

Mortes que têm culpados, mas, entre eles não estão o SUS e os profissionais envolvidos na luta contra o coronavírus. Ao contrário, a situação não é mais crítica porque o Sistema Único de Saúde se mostrou eficiente, apesar das deficiências estruturais que limitam sua capacidade de atendimento em boa parte do País.

Este é outro dado bom mostrado pela pandemia. O SUS funciona e funciona bem. Só por isso os estragos não são muito maiores do que os verificados diariamente na contagem do número absurdo de infectados e de mortos.

A rede de saúde nacional se mostra insuficiente, mas, dentro de suas limitações, atende dentro de uma lógica de funcionamento que tem minimizado as consequências da falta de direção imposta pelo Governo Federal e pela falta de comprometimento de parte da população com as medidas necessárias para achatar a curva de contágio.

Se o Sistema Único de Saúde não fosse alvo de absoluto descaso desde a sua criação, a saúde pública brasileira poderia ter outra cara. A falta de recursos destinados à saúde compromete a capacidade de atendimento, não apenas no combate ao coronavírus, mas em praticamente todas as situações de uso da rede pública de saúde, na maioria dos estados. Não é por outra razão que São Paulo recebe pacientes vindos das mais diferentes Unidades da Federação.

Os responsáveis por isso são políticos de todos os partidos e empresários sem escrúpulos que desviam os minguados recursos da saúde para outros fins pouco nobres.

A pandemia mostrou que o SUS funciona e faz a sua parte, mesmo com muito menos do que seria necessário. Mais do que nunca, é hora de rever as premissas para a saúde dos brasileiros, aparelhar convenientemente o SUS e deixar o Sistema Único de Saúde, com as correções necessárias, fazer o seu trabalho.

Referência: Estado de São Paulo