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Guerra fria das vacinas

17 de agosto 2020 | Paola Minoprio

Não se iludam: a imunização russa está longe de mostrar qualidade e eficácia

Esta semana mais uma barafunda que nos pegou de surpresa nesta história mirabolante do coronavírus. Quando se acreditava que até o final do ano teríamos uma ou outra vacina já testada, vinda da China ou da Inglaterra, além daquelas produzidas pelos americanos e pelos alemães, não mais que de repente os russos entraram na corrida!

A vacina Gam-COVID-Vac, desenvolvida no Instituto Gamaleya, em Moscou, levou o nome de Spoutnik, em homenagem ao primeiro satélite artificial lançado no espaço em 1957 pela antiga União Soviética, na guerra fria.

Semelhante à vacina ChAdOx1-nCoV19, conhecida como a vacina de Oxford, utiliza não um mas dois vetores virais, inofensivos, que carregam o gene da proteína Spike do coronavírus SARS-CoV-2. O que parece muito estranho é que esta vacina foi apresentada após ser testada em apenas 76 indivíduos! O Kremlin garante que a população poderá beneficiar da vacina desde 1° de janeiro de 2021.

Mais uma bomba sem fundamento científico e sem muita credibilidade. Os cientistas russos não disponibilizaram nenhum dado dos testes vacinais de fases 1 e 2 que poderiam atestar que a Spoutnik V é inócua. A vacina produzida pela empresa Binnopharm não foi objeto de nenhum debate científico.

A tese da conspiração já começou no mês passado. Piratas da informática russa foram acusados de roubar informações sobre a produção de vacinas contra o coronavírus dos EUA, da Grã-Bretanha e do Canadá. Na realidade, até agora, a vacina Sputnik V ainda não passou por uma avaliação clínica de fase 3 e está longe de mostrar qualidade e eficácia.

Mas, afinal, o que significam essas fases que tanto limitam o início das imunizações no mundo? Enquanto ensaios pré-clínicos testam a prova de conceito de um produto em animais de laboratório, a convenção prevê que ensaios de fase 1 para a pesquisa de candidatos vacinais incluam a imunização de dezenas ou centenas de indivíduos para verificar se a resposta imunológica induzida é protetora. É importante testar se a vacina é segura e se sua administração não causa efeitos adversos graves num curto prazo. Esta fase pode durar de alguns meses a um ano.

Já os ensaios de fase 2 testam a eficácia da vacina quanto à sua tolerância, além de verificar qual dose é capaz de induzir a melhor resposta imunológica. Nesta fase, que na urgência pode durar até 12 meses, um número considerável de centenas ou milhares de indivíduos são testados. Um grupo controle, não vacinado, é comparado e pode-se verificar, além do impacto da vacina na proteção, a presença de efeitos colaterais mais raros.

É só na fase 3 que milhares de pessoas são vacinadas e os efeitos são observados na vida real. Como a ética médica exige, a exposição ao vírus se dá na natureza, no dia a dia. Por isso essa é a fase mais delicada e pode durar mais tempo.

Apenas quando os resultados desta fase são conhecidos é que uma vacina pode ser liberada. Enquanto as vacinas de Oxford, a Coronavac chinesa e uma quinzena de outras já se encontram em fase 3, a OMS e todos os pesquisadores do ramo consideram que oficialmente os ensaios das vacinas russas estão apenas na fase 1, Não se iludam!

Ao fim e ao cabo, o mundo terá que fabricar bilhões de doses individuais de várias vacinas para poder fazer face à Covid-19. Precisará de doses simples ou múltiplas para que a boa resposta imunológica seja alcançada. Independentemente de quais chegarão primeiro nesta guerra fria das fases vacinais, é melhor que as produções comecem agora se o objetivo é vacinar pelo menos 8 bilhões de terráqueos até o final do ano que vem.

Referência: Folha de São Paulo