Capitolio


Caminho da vacina Coronavac passa por provar eficácia

25 de setembro 2020 | Esper Kallás Maurício L. Nogueira

Candidata induziu anticorpos; resta saber se isso se reverterá em proteção contra Covid-19

Não há dúvidas de que as vacinas são uma grande esperança para combater a pandemia. Embora tidas por muitos como uma bala de prata, são vistas pela maioria dos especialistas como uma arma a mais na luta contra o novo coronavírus, cujo combate ainda dependerá de outras medidas como uso de máscaras, distanciamento social e testes.

Para ocupar um lugar no enfrentamento da pandemia, contudo, qualquer vacina candidata precisa trilhar um caminho comum. Precisa simular a infecção natural pelo coronavírus. Depois, passa a ser testada em modelos animais (com infecções experimentais, em laboratório) para, só então, seguir para testes (ensaios) clínicos em humanos.

Após aprovação ética e científica por órgãos independentes, os ensaios clínicos são realizados em três fases que visam (1) verificar a dose ideal a ser administrada, (2) assegurar que ocorra indução de resposta do sistema de defesa contra o novo coronavírus e, finalmente, (3) checar a proteção conferida. A segurança é contínua e cuidadosamente avaliada, em todas as três fases de testes.

Desenvolvida pelo laboratório Sinovac e em processo de transferência ao Instituto Butantan, a Coronavac está entre as nove vacinas candidatas que chegaram à última etapa de testes. É feita com vírus inativado, ou seja, depois de submetê-lo a processo químico que causa morte, impedindo que se multiplique ou cause doença. Esse método de produção e desenvolvimento de vacinas é bastante antigo e conta com larga experiência.

Vacinas inativadas são extremamente seguras e bem toleradas. Os vacinados não costumam ter efeitos colaterais e, quando estes ocorrem, na maioria das vezes são dor no local da injeção, mal estar passageiro ou febre baixa. Costumam ter um bom desempenho na proteção de doenças infecciosas; porém, em geral, inferior ao conferido por vacinas com vírus atenuado, capaz de se multiplicar.

Mais de 50 mil voluntários foram vacinados com a Coronavac em estudos realizados na China, mostrando boa tolerância e perfil de segurança. Ela também demonstrou capacidade de induzir anticorpos em mais de 90% dos vacinados, com a ressalva de que esta percentagem cai ao redor de 41% a 44% em vacinados acima de 60 anos. Resta saber se isso se reverterá em proteção contra Covid-19.

O estudo fase 3, no Brasil, já incluiu mais de 5.000 voluntários, entre os 13.060 programados. Os 12 centros de pesquisa estão convidando profissionais de saúde que cuidam de pacientes com Covid-19 a receberem vacina ou placebo. Dois desses centros são coordenados pelos autores.

Neste momento de tensão e expectativas, devem ficar claros os objetivos dos estudos clínicos em vacinas.

É preciso que a vacina candidata demonstre segurança e eficácia na prevenção da Covid-19. Essa avaliação depende do número de casos entre os participantes. A eficácia será mais alta quanto maior for a proporção de casos entre os que receberam placebo. Dessa forma, é possível que se calcule qual o percentual de proteção conferida. É importante salientar que o estudo terá sucesso se conseguir dar a resposta: a vacina candidata é, ou não é, segura e eficaz. Embora com bom perfil de segurança até agora, a eficácia da Coronavac ainda não é conhecida.

A velocidade da busca por vacina para Covid-19 não tem precedentes na história, sob o olhar atento de todos os níveis da sociedade. É fundamental que o processo tenha a devida transparência e respeito aos ritos regulatórios, até o licenciamento de uma vacina para uso em saúde pública.

Acreditamos que, num futuro próximo, teremos uma vacina que seja segura e eficaz. Aliás, precisamos de mais de uma vacina, pois bilhões de pessoas necessitam ser protegidas. Tomara que a Coronavac seja uma delas.

Todavia, nenhum estudo pode abrir mão de dois princípios fundamentais: zelar pela máxima segurança dos voluntários e observar estrito rigor científico.

Referência: Folha de São Paulo