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O médico e a tecnologia

15 de outubro 2020 | Paulo Chapchap

O avanço tecnológico abre portas de conhecimento que ajudam a escolher o melhor tratamento para cada paciente

A medicina tem sido pródiga na incorporação de tecnologias para a sua atividade-fim, em benefício da diminuição do sofrimento e em prol da cura. Estamos sempre acompanhando anúncios de novos aparelhos, medicamentos, avanços cirúrgicos e tratamentos menos tóxicos e invasivos. Os médicos têm uma extraordinária capacidade de participar não só do desenvolvimento desses adventos, mas também de sua incorporação. Mas essa desenvoltura não existe quando se trata de tecnologias de comunicação e informação. Uma parte da classe médica tem dificuldade de aceitar a incorporação das comunicações intermediadas por aparelhos com pacientes, uma das ferramentas da telemedicina. O mesmo ocorre com plataformas digitais, que poderiam ser mais usadas para a captura, fluxo, integração e análise de dados para o auxílio às decisões. Mas essas plataformas acabam sendo vistas com um fator de estresse adicional.

E por que resistimos? Uma possível explicação seria o fato de valorizarmos muito, e corretamente, a relação médico-paciente. Sabemos que o contato próximo, a conversa para a coleta de informações, a expressão facial em três dimensões, o olhar com o brilho da presença e o acolhimento pelo toque ajudam a estabelecer uma relação de confiança, fundamental na construção conjunta de soluções em situações de fragilidade.

Os médicos precisam abrir espaço na sua área de conhecimento para incorporar novas funcionalidades.

Para vencermos essa resistência precisamos ter consciência da necessidade e dos benefícios de mudar. A necessidade das plataformas de comunicação para o contato com pacientes distantes e/ou com a participação simultânea de vários profissionais está relacionada à dificuldade de acesso a serviços especializados, mormente os de maior complexidade que exigem saberes raros ou a reunião de vários saberes. Já as plataformas de dados oferecem novas possibilidades, como análise de grande volume de informações, o que permite associar dados genéticos aos determinantes sociais de doenças. Na prática, isso fomentará uma prevenção individualizada de doenças, de abordagens diagnósticas e terapêuticas. O avanço tecnológico abre portas de conhecimento que ajudam a escolher o melhor tratamento para cada paciente.

Em razão da incorporação das tecnologias fim em grande velocidade, a medicina tem ficado muito cara e, portanto, mais excludente. Neste cenário, as tecnologias de comunicação podem aproximar pacientes e médicos ao proporcionar contatos mais frequentes e objetivos, aumentando a eficiência da medicina e ajudando a conter os custos, sem prejudicar a construção da relação de confiança. A tecnologia pode, também, atender às demandas menos complexas rapidamente, evitando idas aos pronto-atendimentos apenas pela falta de tempo de agendar uma consulta presencial.

Existe hoje um desafio de construir times ágeis de alta performance para o desenvolvimento dessas tecnologias. Para isso, é preciso endereçar o choque cultural entre médicos, que buscam o erro zero no desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias, e desenvolvedores, que testam produtos minimamente viáveis para inovarem de forma mais rápida e consistente por meio da interação precoce com usuários. Se colaborassem, ambos ofereceriam ainda mais aos pacientes. Cada grupo precisa abrir espaço na sua área de conhecimento para incorporar novas funcionalidades que possam gerar sinergias.

Uma forma de superar esse impasse seria introduzir na grade curricular dos cursos de Medicina conteúdo que mostrasse os benefícios dessas tecnologias. Seriam turmas mistas e colaborativas entre os cursos de Engenharia e Medicina. Como a formação deverá ser permanente, o chamado Life Long Learning, alunos e profissionais terão contato perene com suas instituições de formação e pesquisa ao longo da carreira, como forma de acompanhar o vertiginoso ritmo da ciência. Como um médico vindo de uma família de engenheiros, sinto não poder ter tido essa chance quando me formei, mas vejo, agora, uma nova oportunidade que se abre para atender esses antigos anseios familiares e as novas demandas para o futuro da medicina.

Referência: Estado de São Paulo