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O sandbox definido

02 de novembro 2020 | Antonio Penteado Mendonça

A Superintendência de Seguros Privados (Susep) definiu os participantes do sandbox de inovação em seguros. São onze empresas e seu universo é vasto, indo de bichos de estimação a veículos mais velhos, de mobilidade urbana a seguros intermitentes etc.

As empresas selecionadas girarão durante um determinado prazo protegidas por regras especiais. A ideia por trás do projeto é que elas adquiram corpo, antes de entrarem no mercado para concorrer em igualdade de condições com os players já existentes.

Segundo a Susep, é uma forma de criar mais competição e acelerar a difusão do seguro entre as várias camadas da sociedade brasileira. Sob certo ponto de vista, está correto. O setor de seguros no Brasil padece com a falta de iniciativas inovadoras, capazes de aumentar o espectro segurável, desenvolver novos produtos, reduzir custos e aumentar a eficiência dos participantes.

Mas a realidade nacional é complexa e vai além das seguradoras poderem ou não melhorar seu desempenho, seja com produtos mais modernos, seja melhorando a distribuição, seja ganhando eficiência administrativa.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais ou menos cem milhões de pessoas recebem até um salário mínimo, sendo que uma parcela significativa está abaixo da linha de pobreza e próxima de passar fome.

A saúde pública, que na pandemia se saiu bem e mostrou que o Sistema Único de Saúde (SUS) funciona, tradicionalmente recebe menos recursos do que o necessário para um atendimento eficiente para a população. E 2021 não será exceção. O quadro deve se agravar, já que a verba destinada ao Ministério da Saúde deve ser R$ 127 bilhões, menor do que os R$ 134 bilhões destinados em 2020, sendo que a pandemia não foi embora.

Para dar uma ideia do que isto significa, cada brasileiro, fazendo a conta com o dólar a R$ 5, terá direito a US$ 125 dólares por ano para suas necessidades de saúde. Quer dizer, numa realidade onde os custos médico-hospitalares aumentam exponencialmente todos os anos, com medicamentos custando mais de R$ 50 mil a caixa, os brasileiros terão R$ 625 por pessoa para tratar da sua saúde.

No campo educacional, a escola brasileira é mal avaliada em todos os levantamentos. E a regra vale para todo o sistema, do ensino fundamental ao ensino superior, no qual a maioria de nossas faculdades cobra caro para entregar um diploma que não serve para nada, exceto enfeitar a parede. Quem tem dúvidas deve olhar os resultados dos exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para ingresso na advocacia. Os números são apavorantes.

Como se não bastasse, dados recentes sobre a realidade da infância, em consonância com as estatísticas do IBGE, dão conta que 80% das crianças brasileiras estão em famílias que recebem até um salário mínimo, com um porcentual importante vivendo no seio de famílias que recebem meio ou até um quarto de salário mínimo por mês.

Esta realidade dramática restringe o potencial de desenvolvimento do seguro para no máximo 50% da população.

Mesmo assim, é número para permitir o crescimento do setor para patamar muito mais elevado do que o atual.

Quando se pensa que menos de 25% da frota de veículos é segurada; que mais de 18 milhões de residências seguráveis pelos padrões atuais não possuem qualquer tipo de proteção; que a maioria dos transportes é feita sem seguro; e que um número alto de empresas não têm sequer cobertura para incêndio, fica fácil concluir que o setor pode crescer muito, tão logo a crise econômica acabe.

Como, na análise feita até agora, estão incluídos apenas os produtos que já existem, e as mudanças que afetam o mundo estão a exigir proteção para uma série de riscos novos, que vão das mudanças climáticas às pandemias, dos riscos cibernéticos aos riscos de responsabilidade civil, a iniciativa da Susep de criar o sandbox para inovação em seguros, pelo menos em teoria, deve ser aplaudida. Daqui pra frente, é ver como a experiência vai funcionar na prática.

Referência: Estado de São Paulo