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300 mil mortes impactam o seguro de vida

15 de março 2021 | Antonio Penteado Mendonça

Depois de atingir em uma semana a marca absurda de mais de 10 mil mortes, o Brasil chega perto das 300 mil mortes pelo coronavírus. E o número ainda deve subir. É uma situação vergonhosa, que não poderia ser integralmente evitada, mas poderia ser significativamente minorada se houvesse, desde o início, a mínima intenção do governo federal de coordenar o combate à pandemia. Não houve e não cabe aqui criticar ou analisar os desmandos que pautaram as ações, ou a falta de ações de Brasília no enfrentamento da doença.

Os hospitais estão lotados. Pessoas morrem por falta de leitos. Novas cepas do vírus podem se multiplicar porque não temos capacidade de vacinar a população na velocidade necessária para impedir sua mutação. Ninguém sabe exatamente o que acontece na compra e produção das vacinas. O Ministério da Saúde não explicou como fica a falta de seringas. Enfim, estamos caminhando a passos largos para nos tornarmos um pária entre as nações.

Mas o mau exemplo vai além e tem consequências dramáticas para outras milhares de pessoas que também perderão seus entes queridos antes que a pandemia possa ser de alguma forma mitigada. Os 300 mil mortos não são o número definitivo. Mães, pais, esposas, maridos, irmãos e amigos queridos morrerão nos próximos meses, vítimas da covid-19 e da irresponsabilidade que vem marcando o comportamento nacional diante da pandemia.

Esse quadro dramático tem impacto direto na retomada da economia. Sem controle da doença, vamos demorar mais do que as outras nações para sair do buraco.

Além do que teremos uma quantidade de mortes também mais elevada. Aliás, neste momento já estamos entre os campeões, perdendo para os Estados Unidos e competindo com vantagem com México e Índia.

Todas as atividades serão de alguma forma afetadas por esse desempenho. E o quadro pode se tornar ainda mais sério se o Brasil for visto como o celeiro das novas cepas do vírus porque não conseguimos vacinar com a velocidade necessária para impedir novas mutações do coronavírus.

Nesse caso, inclusive nossas exportações podem vir a ser afetadas e isto não é difícil de acontecer se lembrarmos que uma eventual barreira sanitária imposta, com ou sem razão, nos deixaria mal na foto.

Entre os setores afetados pelo desenvolvimento da pandemia em 2020, até que a atividade seguradora se saiu bem na comparação com a maioria dos demais desempenhos. Num ano de forte recessão, o setor cresceu pouco, mas cresceu.

Onde a porca pode começar a torcer o rabo é no impacto direto do coronavírus na sinistralidade. Trezentos mil mortos é um número muito alto, mas representa um pequeno porcentual do total de pessoas com planos de saúde privados que necessitaram atendimento médico hospitalar. As despesas das operadoras estão pressionadas e, digam o que disserem, o alto desemprego deve manter o cenário assim por mais um tempo.

Mas há outro ramo de seguro que também está pressionado. Os seguros de vida estão suportando mortes que não foram previstas quando um bom número de apólices foi precificado. Não havia coronavírus, portanto não havia a expectativa de 300 mil mortes.

A maioria dos óbitos não vai gerar indenização porque a maioria das vítimas não tinha seguros. Mas, supondo que 50 mil mortos tivessem seguros de vida e que a indenização média foi de R$ 50 mil, teremos um custo extra de R$ 2,5 bilhões suportados pelas seguradoras. E se a conta for de 100 mil segurados mortos, com capital de R$ 100 mil por segurado, essa conta sobre para R$ 10 bilhões.

Não é provável que a soma das indenizações ao longo de toda a pandemia atinja esse patamar e, mesmo que isso aconteça, a estrutura da operação de seguros, com limites máximos de retenção e cessão de resseguros, evitará que ocorra uma quebradeira de companhias de seguros de vida afetadas pelas mortes causadas pelo coronavírus. Mas o exercício é válido para mostrar o impacto que uma pandemia pode ter sobre uma atividade econômica.

Referência: Estado de São Paulo