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Como será o futuro da saúde no Brasil?

08 de agosto 2021 | Ludhmila Abrahão Hajjar

A saúde no Brasil está em franca transformação digital. A telemedicina, em discussão desde 2002, foi regulamentada em 2020, durante a pandemia, como estratégia segura e eficiente para o acompanhamento médico à distância. Disseminada e com qualidade, ela poderá permitir o acesso inédito de milhões de brasileiros à saúde, sobretudo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O Brasil, provavelmente, estará convivendo com a Covid-19. Tudo dependerá do avanço da vacinação aqui e no mundo, da qualidade das vacinas e do surgimento de variantes. A eliminação da doença pode ser vislumbrada a longo prazo, porém a erradicação, como ocorreu com a varíola, será mais difícil, pois os vírus respiratórios têm maior facilidade de transmissão e de mutação.

Mas a população, ao ser confrontada com essa realidade, vai aderir totalmente às recomendações médicas, posto que a pandemia ensinou que a ciência deve ser a gestora maior da saúde, e que os governantes e as instituições, em uma relação respeitosa, informam a todos, sem fake news.

Assim, possivelmente, períodos transitórios de recolhimento e adoção das medidas protetivas serão necessários para o controle da doença até que avanços na qualidade das vacinas reduzirão a patogenicidade do vírus, e então poderemos vibrar com o fim da doença.

A medicina pública realizará prodígios. Um paciente que requerer atendimento de urgência em um hospital do SUS, por exemplo, entrará pela sala de emergência após ter sido submetido à classificação de risco. É uma espécie de protocolo para diferenciar emergência de situações eletivas. Em poucos minutos, o médico o atende já com seus dados de saúde prévios. Isso foi possível pois, ao ser admitido, o computador leu sua pulseira e teve acesso ao seu prontuário.

O SUS é um sistema universal, que garante acesso à saúde a todos desde 1988. Porém nas últimas décadas, sofre com a falta de financiamento e pela corrupção. Falta tudo: modernização, aquisição de novas tecnologias, incentivo e recursos humanos e estruturais.

O sistema de saúde deverá passar por uma transformação para se adequar à realidade de uma população hoje mais idosa e mais doente, portadora de mais comorbidades, além dos milhares de sequelados pela Covid. Dos pacientes hospitalizados pela doença, 80% terão alguma sequela, sendo em média 50% sequelas motoras e 35% complicações neuropsiquiátricas. Esses pacientes precisarão de reabilitação e de serviços multidisciplinares, os quais deverão ser implementados na estrutura do SUS. A prevenção será valorizada, o paciente vai se engajar para reduzir as doenças preveníveis como as doenças cardiovasculares e o câncer.

O ano promete em outras áreas, além da medicina. A população terá orgulho de sua diversidade e pluralidade. Não haverá preconceitos ou distinção por diferenças de orientação sexual, cultura, religião, política, vestimenta, raça ou cor da pele. Seremos um país mais inclusivo e menos desigual. Reduziremos o número de 19 milhões de pessoas hoje na extrema pobreza. Vamos emitir menos gás carbônico, vamos valorizar nosso planeta.

Também não haverá distinção, em termos de valorização do trabalho. Mulheres, homens, pretos, pardos, índios, todos terão as mesmas oportunidades. A pandemia escancarou a desigualdade que assola o Brasil. Olhamos no espelho e não gostamos da imagem refletida. Morreram mais pacientes atendidos pelo SUS do que no sistema privado. Em 2023 o espelho nos mostrará outra cara.

Será utópico esse país melhor e mais justo? Acredito que não. O futuro depende de mim, de você, de todos nós. Como Caetano Veloso, eu também “vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor”.

Referência: O Globo