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A revolução da saúde digital

12 de abril 2022 | Francisco Balestrin

A pandemia desafiou a resiliência, a agilidade e a efetividade do SUS. Novos e antigos problemas puseram à prova as políticas de saúde, sua coordenação, recursos humanos, materiais e a infraestrutura. Também trouxeram à tona as desigualdades.

A construção de um país mais saudável exige mudanças profundas. O aspecto positivo é que a pandemia acelerou alguns processos inovadores que podem ajudar o SUS. Nesse contexto, as tecnologias digitais se destacam. O conceito de saúde digital vai muito além das consultas ou diagnósticos remotos, pois engloba monitoramento a distância, internet das coisas, inteligência artificial, sistemas, enfim, um arsenal extenso.

Com a digitalização, é possível melhorar o acesso, a qualidade, a interoperabilidade e a equidade. De forma prática, a ideia é ampliar o conhecimento sobre a saúde populacional, reduzir o tempo de espera, o custo da assistência, contribuir para a integração público e privado, promover a interação e cooperação multiprofissional, vencer barreiras geográficas, criar indicadores que auxiliem no planejamento e, na gestão, possibilitar o monitoramento e acompanhamento de portadores de doenças crônicas, entre outros benefícios.

Como os desafios no horizonte são grandes, a saúde digital ataca um dos principais: a finitude de recursos, pois aprofunda a capacidade de coleta e análise de dados em tempo real para avaliação de desempenho, além de combater o desperdício. O avanço conjunto da saúde digital e da inteligência artificial contribuirá para diminuir a hospitalização prematura, o número de consultas desnecessárias, exames repetidos, uso indevido de medicamentos e para elevar o padrão de saúde da população.

Após a criação do DataSUS, em 1991, surgiram vários sistemas e mais de 200 subsistemas, que nem sempre conversam entre si. Em paralelo, as informações da saúde suplementar são tratadas e geridas pela ANS, ou seja, não há integração. Os dados existem, mas rendem pouca informação. E, por isso, quase não são usados para planejamento, avaliação e nem compartilhados entre prestadores e demais integrantes do ecossistema da saúde. A padronização e a segurança dos dados, porém, não são os únicos entraves à expansão da saúde digital. De acordo com o IBGE, em 2019 cerca de 40 milhões de brasileiros não tinham conexão com a internet.

A falta de integração entre os cuidados primários e os serviços de média e alta complexidades é outro problema que a pandemia evidenciou. Segundo o Ministério da Saúde, 85% das demandas de saúde podem ser resolvidas na atenção básica. Para o efetivo funcionamento deste primeiro nível assistencial, é necessário investimento em digitalização e compartilhamento de dados com os serviços mais complexos. E, aqui, a interação entre os setores público e privado é primordial. Um trabalho conjunto poderá não só ampliar o acesso como trazer melhores experiências para o usuário dentro do SUS, direcionando-o ao serviço que melhor atenda às suas necessidades, no tempo certo e dando maior fluidez aos serviços.

Em anos eleitorais, a saúde desponta como uma das principais preocupações dos brasileiros. Experiências internacionais de transformação digital na saúde indicam desafios que passam por mudanças e adaptações profundas de mentalidade, atitudes e habilidades humanas. As tecnologias apenas fornecem os meios, mas, sozinhas, não conseguirão transformar o setor, que precisa de visão estratégica e de profissionais qualificados. É imprescindível aproveitar esta janela de oportunidade, aberta com a pandemia, e alinhar esforços que ajudem a promover um sistema de saúde mais inclusivo, eficaz e sustentável.

Referência: O Globo