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Opinião

Ainda sobre as mudanças climáticas

31 de julho 2023 Antonio Penteado Mendonça

No artigo da semana passada eu analisei um pouco das consequências das mudanças climáticas no Brasil. Partindo das projeções para os prejuízos do El Niño, entrei em temas como secas e inundações e os custos resultantes delas, que nos colocam como país altamente sujeito aos efeitos de prejuízos das mudanças climáticas.

Mas, se a situação é grave no Brasil, o que está acontecendo no hemisfério norte mostra que pode ficar muito pior. O verão europeu e americano está levando as temperaturas para patamares inéditos e catastróficos. Não é comum os países do hemisfério norte terem temperaturas acima de 30 °C ao longo destes meses.

No entanto, este ano, a coisa mudou de patamar. Os países mediterrâneos estão experimentando um verão com temperaturas acima dos 40 °C e, em alguns Estados americanos, as temperaturas chegam próximas dos 50 °C, com todas as alterações e impactos que isso gera na natureza, na vida das pessoas, na agricultura e na economia como um todo.

Se em 2022 os prejuízos causados pelas mudanças climáticas passaram a casa dos US$ 280 bilhões, com menos da metade segurados, este ano a ordem de grandeza das perdas deve ser muito maior.

Começando pelo turismo, que tem nos meses de verão do hemisfério norte seu ponto alto no mundo, passando pelos incêndios florestais, quebras de safra, comprometimento da produção agrícola, impactos na produção industrial e danos de todos os tipos a pessoas, especialmente as mais moças e as mais velhas, as mudanças climáticas, em 2023, estão entrando em cena dispostas a não deixar qualquer dúvida de que são reais e que não temos um dia para perder se pretendemos, não estancar, mas ao menos minimizar os seus impactos.

Antes dos últimos eventos, algumas seguradoras já estavam revendo sua política de aceitação de riscos para excluir o Estado da Flórida dos seguros contra furacões. E os incêndios florestais também estavam sendo excluídos dos seguros oferecidos para determinadas regiões de Estados como a Califórnia. Agora, o quadro se agravou.

A exclusão não é apenas para florestas, mas também para os imóveis em zonas sujeitas a esse tipo de evento. E a mesma política vale para a Europa também. As seguradoras não fazem isso porque são más ou querem ver o circo pegar fogo. A razão é mais simples. O mercado internacional, quer dizer, seguradoras mais resseguradoras somadas, não tem capacidade para aceitar riscos desse tamanho.

Os danos são maiores do que a capacidade global de indenizar. Assim, elas não podem garantir cobertura para eles, sob pena de comprometerem a solvência necessária para se manterem em operação.

Se o quadro já está complicado, as projeções apontam para um cenário muito pior.

As altas temperaturas devem se acentuar ao longo dos próximos anos e as consequências devem ser cada vez mais catastróficas, atingindo países ricos e pobres com a mesma violência. O duro é que, no curto prazo, não tem para onde correr.