Análise da Sinistralidade na Saúde Suplementar
Autor: Marcio Serôa de Araújo Coriolano (*)
Os interessados em receber o relatório na íntegra, devem enviar e-mail para capitolio@capitolio.com.br
Comparação entre 2º Trimestres de 2026 e 2025
Divulgados pela ANS os dados da sinistralidade das operadoras de saúde suplementar no 2º trimestre de 2026 – encerrando o 1º semestre do ano – e feitas as exclusões de empresas com dados insuficientes, a Capitolio coligiu 613 operadoras.
O faturamento do 2º trimestre foi de R$ 177.167.483 mil, ou um aumento de 10,5% frente ao mesmo trimestre de 2025, enquanto o número de beneficiários dessa amostra cresceu apenas 4,2%, tendo havido, portanto, elevação do prêmio médio per capita. Esse aumento médio das contribuições pecuniárias dos beneficiários foi da ordem de 6%, que é superior, portanto, ao incremento da inflação geral da economia no período anual. Pode-se atribuir essa evolução ao reajuste das carteiras de planos individuais e dos planos por adesão desequilibrados, bem como ao ajuste das mensalidades dos novos planos de saúde lançados no mercado.
Focando no objetivo maior deste relatório, um resumo da situação geral da sinistralidade indica um avanço de 81,2% para 81,8% entre os dois trimestres, ou 0,6 pontos percentuais. Tendo a Capitolio registrado os dados desde 2002, um período mais recente mostra que, exceto no ano atípico de 2020 (auge da pandemia), os índices vinham mantendo-se elevados até 2023, após o que observaram queda consistente. Já o 2º trimestre de 2026 reverteu essa situação, embora com pequena intensidade.
Por outro lado, o quadro geral da sinistralidade permite verificar que aumentou a proporção de operadoras com sinistralidade superior ao nível técnico admitido (75%), de 57,8% para 62,2%, uma piora considerável.
O quadro pelo porte das operadoras indica que há dispersão importante em torno da média de avanço – de 0,6 pontos percentuais. O maior crescimento, de 1,0 ponto percentual ocorreu para as grandes, enquanto médias e pequenas melhoraram a sua situação de equilíbrio. A mesma dispersão é observada quando analisada a modalidade das operadoras. As Seguradoras tiveram piora de 3,1 pontos percentuais, seguidas das Filantrópicas, que pioraram 1,8 pontos percentuais. As Autogestões e Medicinas de Grupo tiveram melhora do equilíbrio técnico, enquanto as Cooperativas Médicas mantiveram posição entre os dois trimestres.
Sobre o histórico da sinistralidade, registrada ao longo de 24 anos e mais esse trimestre, em apenas 11 deles o resultado ficou abaixo dos já aludidos 81,8% agora divulgados. Então, recomenda-se cautela com eventuais julgamentos. Ainda mais tendo presente que o atual patamar é produto de múltiplos efeitos após 10 anos de sinistralidade muito elevada pelos efeitos regulatórios e pós-pandêmicos; e que está muito distante dos 76,4% verificados no ano de 2020.
Relembramos ainda que essas médias não retratam a situação real do conjunto das operadoras e seus beneficiários, em face da extrema diversidade setorial. O fato é que a proporção de empresas com nível de sinistralidade acima da média permanece muito elevada.
Comparação entre 2º Semestres de 2026 e o de 2025
Quando levado em conta o 2º semestre, a ANS divulgou o lucro consolidado R$ 12,1 bilhões. Os números corrigem a prévia divulgada no dia 07 de setembro e, agora, a margem de lucro corresponde a 5,8% sobre receita total de R$ 206,3 bi (consideradas todas as operadoras ativas), superior aos R$ 8,5 bi da prévia, porém 12% inferior ao do 1º trimestre de 2025. As operadoras médico-hospitalares responderam por R$ 10,9 bi do lucro informado.
A sinistralidade das operadoras médico-hospitalares ficou em 81,9% (+0,8 pontos percentuais contra 2025), o segundo menor índice desde 2020. A ANS observou fator atípico influenciando essa sinistralidade, representado por provisão técnica aportada por duas operadoras. As aplicações financeiras somaram R$ 142,4 bilhões no encerramento do semestre, mais uma vez revelando a contribuição da taxa de juros prevalecente na linha final dos balanços.
A divulgação dos dados da sinistralidade das operadoras de saúde no 2º trimestre de 2026 e, consequentemente, o fechamento do semestre, deverá permanecer ensejando a mesma polêmica reacendida quando da publicação dos resultados do fechamento do exercício de 2025.
Lembramos que naquele ano havia ocorrido significativa queda da sinistralidade contra 2024, de 83,6% para 81,7%.
Desta vez, a comparação entre os trimestres de 2026 e 2025 traz pequeno aumento, embora confirmando manutenção, no agregado, da recuperação do equilíbrio.
Aspecto importante a observar é que esse pequeno aumento não é, em absoluto, homogêneo em mercado muito diversificado segundo os portes das operadoras, nem muito menos entre as suas distintas modalidades
A polêmica deverá continuar envolvendo, de um lado, principalmente os prestadores de serviços médicos e hospitalares, que buscam mostrar que essa melhoria seria devida a glosas (cortes de despesas nas suas contas apresentadas às operadoras) e práticas de protelação de autorizações de procedimentos médicos solicitados.
Por outro lado, as operadoras de saúde voltam a registrar que os resultados ainda são desequilibrados, após longo período de grandes prejuízos operacionais (sem o resultado financeiro), justificando as extensões de prazos pela necessidade de escrutínio das contas dos prestadores médico-hospitalares, pelo combate às fraudes e pela crescente judicialização no setor
(*) É Economista e ex-Presidente da Confederação Nacional das Seguradoras.
Os interessados em receber o relatório na íntegra, devem enviar e-mail para capitolio@capitolio.com.br