NOTAS sobre 12 anos da Saúde Suplementar: 2013 a 2024
06 de agosto 2024 Paulo Araripe Jr.
Receitas, Despesas, Custos por Beneficiário e suas Taxas de Crescimento
I – Apresentação
1.Em julho passado a Capitolio publicou notas sobre o desempenho da indústria de seguros suportadas pelo seu BI (“business intelligence”) proprietário.
- A análise baseou-se nos dados divulgados pela Susep, agregando gráficos com a evolução das taxas de crescimento anualizadas, ou seja, em 12 meses móveis (*).
(*) Série de médias de períodos estatísticos de 12 meses móveis, sendo apenas como exemplo de cálculo de um ponto da série = julho de 2023 a junho de 2024 em comparação a julho de 2022 a junho de 2023.
- Trata-se de reconhecida melhor medida estatística para a avaliação de tendências do desenvolvimento de qualquer setor de atividades, uma vez que ela suaviza os efeitos sazonais que podem não perdurar no tempo.
- Recentemente, a Capitolio concluiu o seu BI com dados da saúde suplementar extraídos da base de dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
- Estas notas objetivam analisar, ainda que brevemente, os indicadores, em 12 anos, de receitas, despesas e custos por beneficiário (mensalidade “per capita”) da saúde privada (exclusivamente para planos médico-hospitalares) medidos em termos reais, isto é, descontada a inflação pelo IPCA. Embora os resultados aqui utilizados sejam de anos encerrados (exceto estimativa para 2024), o BI permite, doravante, a atualização a cada mês no conceito de 12 meses móveis.
Optamos pela medida em termos reais, uma vez que, mesmo considerando que a chamada “inflação médica” não encontre parâmetro em nenhuma medida de índices gerais ou setoriais de preços, entendemos que, para melhor avaliação da evolução dos indicadores da saúde privada, é preciso descontar a influência dos preços da economia que remuneram os insumos e remunerações do trabalho ao longo da extensa cadeia produtiva da saúde.
Por outro lado, são esses preços gerais que também servem como referência para a capacidade de pagamento do orçamento das empresas contratantes de planos de saúde e para ajustes de salários e remunerações de indivíduos que compram o benefício.
II – Variação Anual em termos reais das Receitas e Despesas da Saúde Suplementar e Sinistralidade – 2013 a 2024
- A tabela e os gráficos a seguir apresentam, para cada ano da série, os dados nominais das receitas e despesas e as variações em termos reais dos dois indicadores. Na sequência, serão registrados breves comentários.


- Nesse período de 12 anos – 2013 a 2024 estimado- o crescimento nominal da arrecadação foi de 177,7%, enquanto as despesas diretas (despesas assistenciais) evoluíram 171,4%.
Descontada a variação do IPCA, os resultados foram de 50,1% de aumento das receitas e de 46,7% das despesas. Ou uma média anual da taxa das despesas de 3,3%. Evidenciando que, como em qualquer outro país do mundo com saúde privada, a “inflação” médica é superior mesmo à “inflação” geral, porém em patamar que parece estar aquém de avaliações mais pessimistas.
- Quando as variações são analisadas a cada ano, ressalta-se a “gangorra” do seu comportamento. Como, de modo geral, a reposição das receitas da saúde suplementar é fixada após apuradas as despesas, com as defasagens próprias a cada tipo de contrato e época de contratação, deveriam ser as variações da despesa assistencial quem determinasse o reposicionamento da arrecadação.
Porém, a política da ANS de reajustes dos planos de saúde individuais e de grande parte dos planos coletivos por adesão (29% dos beneficiários e, embora a Agência não divulgue os dados, presume-se sejam pelo menos 40% das receitas), implica em movimentos substanciais das operadoras para o controle das despesas e reposições dos preços dos contratos em geral a cada período. O resultado é a instabilidade verificada.
Vale agregar que muitas operadoras tem em carteira volume considerável de planos individuais desequilibrados – em “run-off” ou em oferta – e, também, operadoras de todos os tamanhos têm carteira de coletivos por adesão em desequilíbrio. Assim, mais uma vez aludindo à política de reajustes do regulador, o equilíbrio geral das operações pode demandar maior efetividade dos reajustes contratuais pactuados nos planos coletivos empresariais e por adesão e, ao mesmo tempo, obrigar ao ajuste superlativo de mensalidades dos novos planos ofertados.
- Exemplo maior dessa “gangorra” é a queda das variações reais anuais das despesas entre 2017 e 2019, para chegar a uma variação real negativa (-8,38%) em 2020, pelo efeito pandêmico, para então em 2021 ter ocorrido o maior incremento da taxa das despesas (11,8%).
10. Com respeito à sinistralidade no período, o gráfico é eloquente. Até porque essa medida acompanha diretamente o ciclo já comentado da arrecadação e das despesas. Após longo período de sinistralidade sempre alta, porém estável, a pandemia trouxe um ano de relativa queda, cuja razão já foi comentada, para subir consistentemente por três anos e agora em 2023 ter sido reduzida, inclusive pelo efeito da reposição de preços de planos novos ofertados, de vários mecanismos de gestão de contas médicas e de mecanismos contra fraudes e abusos.