Capitolio


Tem vacina. E agora?

25 de janeiro 2021 | Antonio Penteado Mendonça

Finalmente, a vacina brasileira chegou. Não foi uma ação do governo federal, pelo contrário, a Presidência da República fez o que pôde para que ela não chegasse, de suspender sua compra pelo Ministério da Saúde a tentar desmoralizá-la de todas as formas, em postagens e declarações as mais estúpidas.

A vacina que o Brasil tem na mão é a Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, num esforço do governo do Estado de São Paulo para dotar a população de uma vacina capaz de reduzir a pandemia. As outras vacinas estão a caminho mas em pequenas quantidades, como as enviadas pela Índia, absolutamente insuficientes para imunizar a população brasileira, e com uma agravante, ninguém sabe quando chegarão outras remessas, nem quantas vacinas serão enviadas, porque o Ministério da Saúde nem sempre fala a verdade.

Seja como for, neste momento, o País distribuiu mais ou menos seis milhões de doses, o que é absolutamente insuficiente para se pensar em imunização ou qualquer outra ação de política de saúde pública capaz de reduzir o ritmo da pandemia. O total de vacinas dividido de forma proporcional entre os Estados, não dá sequer para vacinar os funcionários de saúde envolvidos no combate ao coronavírus. E o que é o pior, já foram identificados casos de vacinações indevidas, inclusive no Hospital das Clínicas da USP, que deveria dar o exemplo.

Um otimista diria: tanto faz, temos a vacina, agora é tocar em frente e imunizar a nação. Um pessimista diria que com o que temos não é possível fazer muita coisa, além de continuar tratando os infectados. E um realista diria: é hora de mudar o jogo, com pé no chão e respeito à ciência, o que até agora tem sido o mais difícil para o Brasil.

A imunização se dá depois de duas doses da vacina.

Isso quer dizer que, neste momento, três milhões de brasileiros deveriam ser vacinados. Mas não é isso que está acontecendo, estão vacinando muito mais pessoas, sem saber se teremos vacinas para a segunda dose.

Ninguém tem certeza de quanto tempo levará para o brasileiro ser imunizado. Se tivéssemos minimamente feito a lição de casa, em vez de apregoar o uso da cloroquina, a vacinação em massa estaria mais próxima e talvez pudesse acontecer ao longo de 2021. Como demoramos, os especialistas consideram que não teremos a imunização da sociedade antes de meados de 2022.

Até lá, a vacinação terá impacto positivo crescente sobre a pandemia, mas estará longe de proteger a sociedade de forma eficaz. À medida que mais pessoas dos grupos de risco forem sendo vacinadas, menores as chances dos números atuais, na casa de mil mortos por dia, se manterem.

Apenas a vacinação, no ritmo possível, é pouco para virar o quadro. Como não temos condições de vacinar maciçamente a população, é indispensável que o brasileiro reveja seu comportamento e se convença de que a covid-19 mata e, que sem as medidas de distanciamento social e higiene não tem o que fazer, continuará morrendo.

Para que a mudança acontecesse, bastaria bom senso e exemplo das autoridades. A redução dos casos de pessoas infectadas pela covid-19 é o melhor presente que os brasileiros podem ganhar, depois de um ano muito difícil. A diminuição dos óbitos já seria uma vitória impressionante, mas ela pode ser expandida. A covid-19 deixa sequelas terríveis e muitas vezes inesperadas. Reduzir o número de contágios seria a cereja do bolo e ela pode ser conseguida se as pessoas seguirem os protocolos em vigor. Basta evitar aglomerações, não fazer pancadões, não invadirem as praias, andarem sem máscaras, etc.

No médio e no longo prazos, a imunização da sociedade traz um ganho importante para o setor de seguros. A imunização deve controlar a pandemia, ainda que não acabe com ela. Com menos doentes e menos mortos, as indenizações atualmente pagas, especialmente em seguros de vida e planos de saúde privados com certeza, terão uma queda expressiva. Além disso, com a sociedade imunizada, a retomada do crescimento econômico se torna muito mais fácil e ela precisa ser segurada.

Referência: Estado de São Paulo